No domingo anterior ao meu chá de sumiço twítico, eu encontrei com Carlo, meu amigo italiano. Carlo é psiquiatra e mora em Araras, um recanto quase intocado de Petrópolis, numa casinha linda, isolado do mundo, escolha que fez quando sua mulher, há 4 anos, se foi sem dizer ciao, levada por um ataque cardíaco fulminante. Quando o domingo promete ser agradável, Carlo me convida para passar o dia com ele, o que significa, muita conversa, muito vinho e muita comida, que ele faz questão de preparar para mim.
Carlo me recebeu com seu cumprimento típico: assim que desci do carro, segurou-me pelos braços, fincando os dedos nos meus tríceps e me beijando as bochechas com estalos. Bella… Me levou à varanda, onde me serviu uma taça de um vinho divino (e provavelmente muito caro) e sentou-se ao meu lado para as perguntas de sempre: a vida, a família, o trabalho, aquele sujeito de quem você acha que gosta… é claro que minhas explicações, por mais que Carlo se mostre interessado na minha vida, e algumas vezes em demasia, nunca duram mais de quarenta minutos. Como todo italiano, ele é o centro das atenções e, é fato, eu me encontro com ele muito mais para ouvir do que para ser ouvida, ainda que muito mais para ser bajulada do que para bajular. Carlo e eu temos um equilíbrio incomum, resumido em: ele cozinha, eu como, ele fala, eu escuto, eu viajo, ele contempla.
Carlo começa como eu, pela vida, pelos filhos adolescentes do primeiro casamento que moram com a mãe na Itália, fala sobre medicina, psicoses, psicopatias, drogas novas, drogas antigas, e logo muda o discurso para Dante Alighieri, Michelangelo e óperas, todas as óperas e os personagens das óperas e suas psiques. Eu olho para ele fascinada. Nem sempre acompanho seu raciocínio, às vezes me perco naquilo de tão especial que aquele homem trouxe para minha vida – empatia. Com Carlo, descobri o que significava empatia.
Bella, você fica muito mais bonita com esse cabelo solto e todo enrolado. Mas Carlo, esse cabelo não combina com a minha profissão! Mas como não?
Com a primeira garrafa de vinho quase ao final, ele vem da cozinha com meu antepasto preferido, filetes de abobrinha refogados em alho, um pão meio morno, azeite, um moedor de sal e um de pimenta. Delírio. Derramo o azeite no prato, ponho sal, passo o pedaço de pão e o levo à boca, lambendo o dedo anular. Você come como se estivesse fazendo amor. Você nunca fez amor comigo, Carlo, eu digo de boca cheia. Ah, bambina, como você é má. E caímos na risada.
Mais vinho, e carpaccio. Mais vinho, e a pasta, pesto, pignoli. Ele fala, eu escuto. Eu viajo, ele contempla. Mais vinho. Um abacaxi cor de rosa doce de sobremesa, e eu caio no sono na rede da varanda. Acordo uma hora e meia depois, já escureceu, o sol já se foi nos fazendo lembrar que ainda é inverno. Carlo lê com a sala escura e uma luminária em cima do livro. Você está bem, bella? Sente-se aí que já faço um café para você. Vamos ver um filme? Não querido, já está tarde, viajo cedo amanhã, acho melhor ir para casa. Va bene, mas pelo menos um café. Claro, querido, sem um café eu não chego nem na porta!
Carlo me leva até a cozinha. Prepara dois expressos, e mais dois, que nunca bebemos uma xícara só. Bella, promete que deixa esse cabelo assim, como está? Claro, querido, eu minto. Ele sabe. Carlo sabe de tudo.
Ele se despede de mim da mesma forma que me cumprimentou, mas com menos entusiasmo. Ciao, bello, eu digo.
E eu volto para casa, naquela estradinha escura sinuosa de Araras, pensando em algumas coisas que sei sobre Carlo. Carlo não tem orkut, nem twitter. Só se comunica via internet com os filhos, pelo skipe. Carlo não tem vida virtual, nunca teve (embora eu saiba que ele lê este blog, e acredito mesmo que seja apenas este blog). Seu notebook vive desligado e raramente sai de dentro de seu carro simplesmente porque é esquecido por lá. Carlo só seduz com olho no olho, só tem amigos de longa data, de quem conhece a voz e as manias. Quando está só em casa, lê, vê filmes, recebe os amigos, dorme. Faz nada. Contempla.
Neste dia eu decidi dar sumiço na minha conta do twitter e sua verborragia. Eu não preciso me comunicar tanto. Eu não preciso dar notícia. Eu não sinto a menor necessidade de espalhar meu mau humor, ou minha alegria, ou meu bad hair day, ou desgastar minha inteligência em aforismos autoafirmativos ou em tentativas humorísticas de 140 caracteres. Eu sinceramente não me sinto na obrigação de dar minha opinião sobre tudo. E menos ainda de ler a opinião alheia sobre tudo.
PS: a conta só foi mantida por um resto de apego ao nome @brommelia, e por alguns interesses específicos, a maioria profissionais.