Ela reparou nele logo no primeiro dia. Já no primeiro dia ela deu de cara com ele. Já não bastasse o tudo mais que faz o primeiro dia ser o primeiro dia, e que, de certa maneira era também uma primeira vez, teve ele, ali, completamente diferente de todos os outros que por ali passavam. Ela desconcertou, mas ficou na dela. Afinal, a troca de palavras não foi nada muito além de um ‘boa noite’.
Depois mais um bom tempo de ‘boa noite’, e umas ou outras conversas eventuais, onde ele perdia o olhar, e ela não sabia bem se ele prestava atenção ou não. Coisas que a deixavam intrigada, mais ainda quando ela não conseguia respondê-lo com um percentual satisfatório de certeza. Debates filosóficos…
Hoje tudo foi diferente. As impressões não divagaram, mas foram incisivas sobre sua pessoa, num elogio sincero e, ao mesmo tempo, tímido. Estavam sozinhos. Ela se virou de costas e sentiu que desta vez ele a olhava diferente – os olhos não se perdiam mais.
Ela se despediu com o ‘boa noite’ de praxe, mas precisou voltar pois esquecera um material. Sempre acontece isso, mas desta vez detestou ter que voltar e ter de vê-lo novamente. Sabia que ele ainda estaria sozinho na sala. Entrou de cabeça baixa como que espanando uma poeira da roupa. Pegou o material e saiu sem repetir o ‘boa noite’. Ele observara cada passo dela.
Agora ela não sabe como será daqui para frente. Mas sabe como é problema quando toda a inteligência se concentra num só olhar.
