Arquivo para Abril, 2008

28
Abr
08

Curta metragem

Ela reparou nele logo no primeiro dia. Já no primeiro dia ela deu de cara com ele. Já não bastasse o tudo mais que faz o primeiro dia ser o primeiro dia, e que, de certa maneira era também uma primeira vez, teve ele, ali, completamente diferente de todos os outros que por ali passavam. Ela desconcertou, mas ficou na dela. Afinal, a troca de palavras não foi nada muito além de um ‘boa noite’.

Depois mais um bom tempo de ‘boa noite’, e umas ou outras conversas eventuais, onde ele perdia o olhar, e ela não sabia bem se ele prestava atenção ou não. Coisas que a deixavam intrigada, mais ainda quando ela não conseguia respondê-lo com um percentual satisfatório de certeza. Debates filosóficos…

Hoje tudo foi diferente. As impressões não divagaram, mas foram incisivas sobre sua pessoa, num elogio sincero e, ao mesmo tempo, tímido. Estavam sozinhos. Ela se virou de costas e sentiu que desta vez ele a olhava diferente – os olhos não se perdiam mais.

Ela se despediu com o ‘boa noite’ de praxe, mas precisou voltar pois esquecera um material. Sempre acontece isso, mas desta vez detestou ter que voltar e ter de vê-lo novamente. Sabia que ele ainda estaria sozinho na sala. Entrou de cabeça baixa como que espanando uma poeira da roupa. Pegou o material e saiu sem repetir o ‘boa noite’. Ele observara cada passo dela.

Agora ela não sabe como será daqui para frente. Mas sabe como é problema quando toda a inteligência se concentra num só olhar.

27
Abr
08

A estante da minha casa

Ter uma mãe professora de literatura é muito legal. Não falo muito com ela sobre isso, afinal ela é minha mãe, e temos outros assuntos a tratar. Bom mesmo é a estante dela. Dela e do meu pai. Na verdade, a estante é da casa, ou de todos que passam pela casa.

Gosto das “obras completas” editadas pela Nova Aguilar. Principalmente Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes. Mas comecei com a Cecília Meirelles. Devia ter uns 7 anos. Também gosto da coleçãozinha Mestres da Pintura, que deve ser mais velha que eu. São uns livrinhos brancos. Ou melhor, eram. Hoje são quase marrons. Não deixei que minha mãe os passasse pra frente quando ganhou uma outra coleção preta de arte, que tem quase tudo e muito mais. “Deixe esses pras crianças”, eu disse. Toda criança tem direito de se divertir com as pinturas do Picasso.

Temos umas 3 enciclopédias de história universal. Mais duas básicas, Barsa e Larrousse. E agora a irmã geógrafa ganhou a da National Geographic. Fora os dicionários. Vários, e não só de línguas.

Teve mais três coleções da Abril que me ilustraram a infância. Uma tal de “Nosso Século”, que é tipo uma revista, e eu me divertia com aquilo, e gostava particularmente da parte das melindrosas. A enciclopédia de mitologia, de três volumes. Toda criança devia ter o direito de ter uma dessas de mitologia, são as histórias mais legais, que eu não lia, só via as figuras, pinturas clássicas, esculturas. Gostava da pintura do Saturno comendo um dos filhos, achava bizarro e nojento, e da escultura da mãe do Aquiles o segurando pelo famoso calcanhar. A outra era a tal de Medicina e Saúde. E, vai entender, nessa eu gostava de ver umas figuras de uns machucados estranhos, que depois eu vim a descobrir que estavam no capítulo da medicina forense.

Outro livro que eu gostava chamava-se COSMOS, do Carl Segan, que era do meu padrinho, e que eu via sempre que ia passar fins de semana na casa dele. E depois era luneta e lua até ele falar: chega! Hora de dormir. Aliás, ele me deu um montão de livros de presente.

Não fui uma criança anormal. Eu vi muita TV igual a todas as crianças, ainda mais em Petrópolis que chove pra caramba. Desenhos, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Balão Mágico, sessão da tarde e novelas, muitas. E brinquei de Barbie, de boneca, de casinha, joguei bola, tomei banho de mangueira, ralei o joelho e o cotovelo correndo pra todo lado, colecionei papel de carta. Mas os livros, os mais legais, os de adultos, estavam sempre por ali, ao meu alcance, o tempo todo.

25
Abr
08

Oops!

Eu estava devendo este ‘poste’ a mim mesma. Como o soninho não vem, vamos lá. Está rolando um fuá entre os profissionais de comunicação a respeito do posicionamento do TSE – Tribunal Superior Eleitoral, a respeito do que pode e do que não pode ser feito na internet sobre propaganda eleitoral.

Será que os respeitáveis senhores ainda não entenderam que não dá pra regulamentar o irregulamentável? Querem que eu desenhe???

Além disso, se internet não existe em LEI, não dá para baixar resolução falando sobre o assunto, interpretando sobre o que já existe para rádio e TV, se internet não é rádio nem TV. Isso faz Montesquieu tremer no túmulo!

É preciso que estes cérebros antiquados entendam que a internet é um veículo onde tempo e espaço foram relativizados. Todos têm acesso. Não é igual a rádio e TV, onde tem que se fatiar o bolo. Aqui o bolo é infinito. E melhor, aqui a verdade aparece. Aqui a liberdade de expressão é realmente LIVRE. Além de proporcionar um debate mais aberto, com resposta e questionamento do eleitor.

Para mim, acabava essa palhaçada de rádio e TV. Fazia propaganda só na internet, cada um com seu site, com blogs relacionados, pra que pudéssemos apertar o sujeito antes dele chegar ao poder. Aí sim eu iria começar a ver uma luz no fim do túnel da democracia.

24
Abr
08

Hoje eu sonhei…

Ok. Todo mundo sonha todos os dias. Mas eu raramente me lembro dos sonhos. Dizem os mais entendidos que devemos fazer um esforço para lembrarmos deles, mas sei lá. “Sonhar” pra mim é uma eventualidade.

Foi um sonho legal… eu encontrava a Bebel lá no Egito. Mas o Egito parecia mais com uma Búzios. O hotel era deslumbrante, tinha a foto do Onassis, mas parecia mais romano do que egípcio: tinha umas piscinas enormes, várias, dentro de uns salões de mármore, maravilhoso… mas saindo destas salas, tinha (nada a ver, só em sonho) uma varanda de madeira, cheia de trapadeiras, umas velas… bem Búzios. Num dos salões, em vez de piscina tinha algo parecido com uma cama ou um enorme tatame, de algodão branco (egípcio, devia ser), com umas almofadas vermelhas, medindo uns 5 X 7 metros, e até agora eu estou me perguntando para que devia servir aquilo. Não deu tempo de perguntar para as camareiras do hotel. Coisas de sonho…

Não vi Cleópatra, não vi pirâmide… só vi Bebel e mais uma meia dúzia de pessoas desconhecidas. E nós estávamos fazendo hora para sair pra jantar, adivinhem, nhoque!

22
Abr
08

Pessoa. De mim pra você.

Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão
Só eu, só eu
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu
Vê-se mas não há nele que ver

Eu realmente adoro esse poema, que se encaixa em quase tudo na minha vida.

21
Abr
08

O que ela mais quer

Ele era tudo que ela imaginava. Interessante, inteligente, gentil, carinhoso. Exatamente como era enquanto tudo era apenas uma troca de palavras. Mas só depois de saber disso é que teve certeza de que não era o que ela queria. Não que ela não quisesse a inteligência, a gentileza e o carinho, mas havia algo que ela sabe o que é, mas não sabe dar nome, nem consegue explicar, que a impedia de continuar ali ao seu lado.

E para colocar as idéias em total desordem, ela se esconde no buraco mais escuro da cidade, e encontra com ele. Ele que lhe envia bilhetes escritos em bolachas de apoiar copos, que ela guarda para ler em casa… que declama poesias, que se declara proibido de se aproximar dela por motivos que existem mais na cabeça dele do que na realidade dela, que a tira pra dançar, e pra dizer que dança mal encosta seu rosto no dela. A segura certo de que a quer, incerto de que não deve. E pede de volta o bilhete, não quer que ela leia, acha melhor não. E ela devolve. E mesmo tendo passado a noite inteira com a bolacha no bolso, não caiu na tentação de ler. Devolveu sem saber o que estava escrito e agora fica imaginando… devolveu porque de fato ela não o quer, quer alguém como ele. Mas fica imaginando…

E é claro que ela quer alguém inteligente, gentil e carinhoso, mas ela não precisa saber disso tudo de uma vez só. Ela quer surpresas, sedução em doses homeopáticas. Algo que dela arranque sorrisos infantis. Ela sabe que o essencial num poema não é a rima mas o ritmo.

18
Abr
08

Para arrematar a semana

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem, ou que seus planos nunca vão dar certo…

Tem gente fazendo isso o tempo todo. Cuidado! Coisas mais estapafúrdias podem dar certo sim! E geralmente quem está na torcida do contra tem inveja ou está com medo.

... tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar…

Bom fim de semana a todos que por aqui passarem. E para os que não passarem também.

16
Abr
08

A mídia, o mal, filosofia, etc e tal.

Sou leitora da revista Veja há mais de 20 anos, porque meu pai é assinante há mais de 20 anos. Assim, depois de tanto tempo, minhas críticas à revista são cada vez mais freqüentes, pois é muito mais fácil e verdadeiro criticar aquilo que bem conhecemos. Mas não estou aqui para falar mal da revista. Nem bem. Só não gostei muito da capa da edição 2055, que trazia o tema “O Mal – uma investigação filosófica, psicológica, religiosa e histórica sobre as origens da perversidade humana”. Acho que isso é assunto para, pelo menos, 4 teses de doutorado.

Mas o que acho que estou querendo fazer com este ‘poste’ é uma crítica geral à imprensa brasileira. Veja se aproveitou de um caso popular na mídia – a morte de Isabela – pra tentar fazer uma bela reportagem. Não conseguiu jornalismo puro, se atendo ao assunto, nem uma bela reportagem, visto que “o mal” não é um assunto para ser tratado em 5 páginas. Aliás, sempre achei leviano a citação de conceitos como o bem, o mal, a felicidade, o amor conforme o filósofo beltrano ou cicrano, pois a conceituação desses caras só fazem sentido dentro da obra toda. Certamente quem escreveu a reportagem deve conhecer razoavelmente quem foi citado, mas em 5 páginas, com boa quantidade de fotos, mais confunde que esclarece.

Patética também tem sido a atuação da imprensa de TV, e de outros jornais. Parece que estão sem assunto. Dizem ter informações sobre laudos que nem saíram. Blefam vergonhosamente para segurar o telespectador.

Ontem conversava com um colega delegado: casos como o dela acontecem diariamente em todo o país, principalmente nas áreas em que a exclusão social é evidente. Fora os maus-tratos e abusos sexuais sofridos por crianças das classes A a E. Por que só um ou outro vai à mídia? Falta de assunto? Ou medo de um posicionamento veemente contra essas práticas? Por que tenho a impressão de que a imprensa sempre está em cima do muro? De que o que faz é vender notícias romanceadas como a inglesa vende o Harry Potter?

Madeleine virou romance, o bebê da Pampulha virou romance. Isabela está virando. Mas quem vive ou conhece o dia-a-dia policial sabe quantas Madeleines e Isabelas tem por aí, quantos bebês da Pampulha são despejados diariamente nos rios e nas lixeiras.

Quem me dera Isabela ser um caso isolado no Brasil.

09
Abr
08

(Grandes e importantes) Heranças históricas

Confesso que não tenho tido muito tempo para ler e assim a categoria anda meio esquecida. É que tenho lido demais literatura específica para o trabalho, então, nas horas vagas, tudo o que mais quero é ver televisão!

Mas pra não deixar a coisa assim tão de lado, vou lembrar de alguns livros muito importantes, pelo menos para mim, pegando carona nessa coisa de cultura, idiomas, liguagem, etc, que tenho compartilhado com os companheiros blogueiros.

Um deles vou citar hoje para os meus alunos, que é A Cidade Antiga, de Foustel de Coulanges. É um livro fenomenal. Fala basicamente de como a coisa toda funcionava – poder político, econômico, relações sociais e familiares – nas cidades-estado da antiguidade. Muito legal. Não o li todo, mas alguns bons pedaços, que me fizeram assistir a ROMA, da HBO, com outros olhos. Aliás, adorei ROMA, e recomendo. Inclusive o making off que vem no DVD e não sei se foi exibido na HBO.

Continuando, é evidente a nossa permanente lembrança de Grécia e Roma como nossos antepassados de maior referência. Sem dúvida, só pela filosofia dos gregos e direito romano, somos herdeiros mesmo de todo este pensamento, mas outros povos influiram decididamente sobre a nossa cultura, principalmente para quem tem antepassados portugueses ou espanhóis. Me refiro aqui aos árabes e judeus. E encontrei muita identificação do que temos hoje com coisas que li num livro chamado O onamento do mundo, de autoria de María Rosa Menocal. Ali você descobre, por exemplo, porque as traduções espanholas são as de melhor qualidade, e vê como os árabes e os judeus eram detentores de tanta cultura e ciência.

Indo mais além, tenho verdadeiro apreço pelo legado que a tradição celta nos deixou. E, nerdice mor da minha parte, li Uma luz sobre Avalon, e entendi melhor o que esse povo tinha a dizer, o que influenciou na historia européia, e o que nos deixou, principalmente em termos de literatura, toda aquela relação do homem e mulher das cantigas da Idade Média. Indo um pouco mais além, serve para desmistificar essa coisa de acreditar que a mulher, em todo o tempo antigo, sempre foi considerada inferior ao homem. Ali era diferente – muuuito diferente, por sinal. E por conta da herança celta da qual não conseguiam abrir mão, muitas foram pra fogueira. Muito interessante. O livro é da Maria Nazareth Alvim, que já citei aqui como autora de “As Deusas, as bruxas e a Igreja”, que também toca no tema dessa “viagem” do feminino através dos tempos.

Vou voltar pra casa neste fim de semana doida pra dar uma olhadinha mais na Cidade Antiga.

06
Abr
08

Visitantes ilustres

Aprender o alemão não me chega a ser um arrependimento, porque nunca tinha pensado em aprendê-lo. Até sentir falta dele. Dali em diante passei a recomendar o alemão a todo futuro advogado que vem me pedir um conselho. Mas isso é explicação pra outro ‘poste’. O fato é que o alemão estaria sendo de boa serventia no exato momento se eu soubesse apenas algumas palavras básicas. E por situação completamente alheia ao direito.

Tenho visitantes ilustres aqui na minha casa, vindos direto da Bavaria – Kai-Uwe e Maria Luísa, que entendem o português razoalvelmente, mas às vezes fingem que não entendem, e só falam o alemão, por enquanto! Aportaram aqui, viraram a casa pelo avesso e instalaram uma alegria sem igual. Já sinto falta deles só de pensar que passarei a semana-útil fora daqui.

Maria Luísa é uma bebê de dois anos e pouco, linda, doce, esperta. Tem esse nome em homenagem a mim e à minha irmã. Passa a mão na minha bolsa dizendo: “mein bolsa”, e sai acenando dizendo “tschüs!”, com uma boquinha linda de morrer! Ensinei a ela a dizer “chulé”… é claro, faz parte ensinar crianças a falarem bobagens… ela pega o sapato e diz: ‘hummm, chülé!”. O trema é por conta do sotaque. Linda!

Kai-Uwe já é um desafio maior. Nele já dá pra sentir a tremenda diferença comportamental entre nós e os alemães… começou dedurando à mãe dele que a “Oma Elen” (Vó Elen – minha mãe) dirigiu um trecho sem por o cinto de segurança. Hoje me surpreendeu no restaurante ao esperar, dez minutos além do nosso pedido, o pedido dele chegar sem dar a mínima manifestação de impaciência com o fato, quieto e comportado. Até terminar o almoço, não se enganem. Essa disciplina faz parte apenas do germany way life. Na verdade o moleque é terrível! Ele apronta, foge, come todos os chicletes de uma só vez, bate na irmã, e mais tudo que todas as crianças levadas de 5 anos fazem. Fala um monte de coisas em alemão pra gente que não entende nada e sai rindo da nossa cara, e pior, tem feito isso com a mãe dele, pois está falando o dialeto da Bavaria e ela só entende o alemão.

Hoje os dois saíram para o almoço vestidos com roupas típicas da Bavaria. Ela com um vestido xadrez azul e branco, com avental azul e botões de edelweiss e ele com bermudas de couro marrom bem ao estilo da família Von Trapp (que era austríaca, mas a região é a mesma).

Fim de semana que vem devo ter mais novidades pra contar… eles ficarão por aqui um bom tempo. Em breve também ponho fotos desses dois que estou amando. Por enquanto meu alemão conta com 3 palavras novas: mein, nein (isso é importante com crianças) e tschüs! Além do meu velho conhecido Verfarssugsrecht!