A onda deste blog nunca foi contar histórias. Talvez até seja, mas não com narrativas em terceira, às vezes em primeira pessoa, como alguém dos links aí ao lado desempenha com mestria. Mas esta é uma boa história para ser contada. Vamos ver se dou conta do recado.
Eles se “reconheceram” numa festa de uma amiga dela. Ela acompanhada de um sujeitinho meia-boca, ele afim da amiga dona da festa. Era uma daquelas festas adolescentes que acontecem quando a mãe-dona-da-casa viaja e todos ficam bêbados com bebidas ruins. Mas o que se deu de mais importante neste dia fora isto: eles se reconheceram.
Tinham sido amigos de infância. Moravam na mesma rua. Ela, uma menina que ainda brincava de bonecas, tinha a bicicleta mais nova da rua e se intitulava “presidente do clubinho”. Ele, o filho mais velho de três irmãos. Mais velho, mais levado, mais atrevido. Ousava por vezes bater à porta da casa dela para pedir a furadeira emprestada para “consertar o skate”, e, é claro, questionava a “presidência do clubinho”. Mas ainda assim se davam bem. E naquela festa se reconheceram.
Se reconheceram 5 anos depois dele ter mudado de cidade, devido à separação dos pais. Agora estava de volta. Mas ali não tinha mais como rolar nada além de trocas de lembranças, pois ambos estavam, ainda que por uma noite, comprometidos. E dito e feito. Passada aquela noite, cinco dias depois começaram a namorar.
Acontece que o sujeitinho meia boca, numa destas madrugadas da vida, fez uma certa pressão para que ele falasse a verdade, pois não acreditava que o namoro existisse. Ele não pensou duas vezes: se mandou com o desafeto, e mais duas testemunhas, para a porta da casa da menina, provar que sim: eles estavam namorando. Só que devem ter chegado por lá por volta de quatro e meia da manhã. Não dava para bater na porta àquela hora. Dormiram na calçada.
Seis e meia da manhã, toca o telefone, a mãe dela atende, era a vizinha: “Bom dia! Desculpe acordar vocês mas é eu estava saindo para ir à feira, passei por sua rua, e tem quatro dormindo na sua porta. Mas não são mendigos não. Pela pinta, devem ser amigos das meninas”. A mãe, ainda meio atordoada com a notícia, comunica ao pai, que prontamente se levanta e, ao invés de resolver a história sozinho, vai até lá, dá uma espiada, reconhece os infelizes, e volta para acordar a menina dizendo: “Levanta que tem quatro te esperando, dormindo lá na calçada.”
Ela põe o roupão cor-de-rosa, sai toda descabelada, dá uma espiada, vê o namorado, o desafeto do namorado e as testemunhas dormindo sentados na calçada, e só consegue pensar: “Putaqueopariu, era só o que me faltava. Por que meu pai não foi lá e resolveu tudo? No mínimo pra me sacanear o resto dos meus dias.” Voltou, escovou os dentes, prendeu o cabelo. Disse que ia voltar pra cama. A mãe insistiu para que ela fosse abrir a porta e ela foi. Respira fundo, um, dois, três e “que diabos você está fazendo dormindo na calçada da minha casa????” E ele responde: “Nada, linda. É que eu senti saudade e resolvi amanhecer aqui.”
Ela teria acreditado se naquele momento seu primeiro namorado fosse apenas um primeiro namorado comum, e não um primeiro namorado que já tinha sido um amigo de infância pra lá de excêntrico. Então, pela primeira vez exerceu um ato de lealdade, se fez de apaixonada, deu-lhe um beijo cinematográfico e disse-lhe ao pé do ouvido: “mais tarde a gente conversa”, afinal, ele não podia sair na pior na frente dos amigos.
PS: “Uma rua como aquela” é o um livro de Lucília Junqueira de Almeida Prado, que conta a história de jovens que moravam na mesma rua e que viveram aventuras e desventuras no passar dos anos. Pela identificação com a história, o título do ‘poste’.