Há um bom tempo atrás, eu descia a serra duas vezes por semana num ônibus quase exclusivo, em que pessoas que descem e sobem a serra todos os dias têm lugares cativos e formam, como elas mesmo definiram, uma “confraria”. Eu não pertenci à confraria, afinal, eu só fiz isto por dois anos, duas vezes por semana e apenas descendo a serra, pois subia em horários diferentes, raramente no mesmo ônibus. Então eu era expectadora. E um dia fiquei sabendo que a Dona Taís, uma senhora gorducha, estilosa e despojada, com ares de gente muito inteligente e titulada (não sei se era de fato, isso era o que eu achava), iria para a China, numa viagem de dois meses.
O primeiro embarque da Dona Taís depois da volta, foi uma festa. Todos queriam saber como tinha sido a estada na “misteriosa” China. E ela contou, contou, contou, falou de várias coisas, das coisas que tinha comprado, dos mercados, disse que tinha trazido o que tinha prometido a D. Áurea (uma outra membro da confraria, estravagante e chiquérrima), mas o que mais me chamou a atenção naquela conversa da qual eu não participava e ouvia fingindo um sono matinal de viagem, foram as palavras da Dona Taís, senhorinha gorducha, estilosa e despojada, e com ares de inteligente, que não me conhece, dizendo: na China, tudo é falso. E há falsos de diversas qualidades. Falsas bolsas Louis Vuiton baratinhas, falsas bolsas Louis Vuiton de preço honesto, falsas bolsas Louis Vuiton que custam um pouco menos que as verdadeiras. Tudo o que você pode pensar que fabricam no mundo, fabricam lá também. Chegam ao ponto de falsificar automóveis. É tanto falso e verdadeiro convivendo junto, e tanto falso quanto verdadeiro fabricados no mesmo lugar, que a noção de falso e verdadeiro se perde. Afinal, se tudo é chinês e as coisas são exatamente iguais, qual a diferença da falsa para a verdadeira?
E vieram os jogos olímpicos de Pequim. Creio que os mais esperados de todos os tempos. E junto com eles, algumas verdades sobre a falsidade e a verdade da China. Uma semana antes, eu comentava com um amigo que eu não esperava menos do que o luxo que foi a abertura dos jogos. Afinal, se eles têm capacidade de fabricar abajur de fibra ótica, e tranqueiras que piscam, e flores artificiais de todos os tipos, para abastecer todas as lojas de quinquilharias do mundo todo, usar esta tecnologia em benefício próprio era o de menos. Isto somado à cultura da disciplina e da busca pela perfeição, e ao fato de serem todos naturalmente “iguais”, fez a carnavalesca comentarista rasgar a bunda de inveja.
Mas nunca tarda a imprensa a desvendar o lado B das coisas, não tardaria para a China. E assim, resumido na história da cantora mirim fake lindinha cuja voz era de fato a voz de uma cantora mirim verdadeira feinha, a China acabou por assumir que o que quer é ter uma boa imagem para o mundo. É o que a China quer e é o que todos queremos, no fim das contas. A China não faz nada de muito diferente que todo mundo faz. Não fez nada que o Brasil não tenha feito para o Pan, guardadas as devidas proporções. O que a China quer é o seu lugar ao sol neste mundo onde o que importa é a imagem.
A imagem é o grande valor (ou contra-valor) do século XXI. Deveria valer mais a medalha de ouro na ginástica artística conquistada pelas meninas da equipe chinesa que desbancaram as americanas (dentre as quais a gracinha da Shawn Johnson, de quem sou fã) e as outras 17 medalhas de ouro que a faz estar em primeiro quadro de medalhas? Talvez. Mas o que a China quer mostrar é que é tão eficiente na imagem quanto todos os outros. Ainda que sofra das mazelas de trabalho escravo, da censura nos meios de comunicação. E ainda que não saiba o que vai fazer com tanta poluição, com a falta de energia e com a falta de comida.
PS: talvez não volte a falar dos jogos olímpicos aqui. Então quero deixar apenas um nome: Michael Phelps. O cara é um monstro. Merece a minha torcida.