Por estes dias a Frida faz um ano. Pensei em republicar o ‘poste’ que escrevi na época, mas republicar é uma idéia que não me agrada muito, não sou mais eu, passou o tempo, sou mutante. Só que a Frida me marcou tanto, e a todo mundo, que volto a escrever sobre ela mais uma vez, uma re-edição do ‘poste’ original, eu diria.
Não me lembro exatamente de onde surgiu a idéia de me fantasiar de Frida Kahlo. Eu sou completamente fascinada por fantasias e festas à fantasia, e não sou do tipo que me aproveita delas para por a sensível libido masculina à prova, até porque nunca precisei disto. Então, minhas fantasias sempre são o resultado de algum devaneio pessoal, combinado com acessórios mil que tenho em casa (um baú deles), criatividade, maquiagem, vontade e muita, mas muita cara dura. Porque melindrosa, enfermeira, anjinha e coelhinha todo mundo ama. Mas uma mulher de bigode… bem…
Era a festa certa para a Frida aparecer: presença de muitos amigos, vontade de fazer graça, festa pequena e restrita. Mas o resultado… quantos não foram os olhares de espanto para cima de mim, uns com pena da feiúra retratada e alguns mais assanhadinhos pensando estar diante da Salma Hayeck (que interpretou a Frida no cinema), apesar de eu medir uns bons muitos centímetros a mais que ela e que a própria Frida. E o que eu achava que fosse apenas curtição se tornou um verdadeiro maremoto de questionamentos.
O começo da tormenta, dois fatos: eu, bonita, Frida, feia. E daí que eu não estava nem aí em me “enfeiar”? Eu queria mesmo era curtir! Como fiz, com saião, tranças, flores, anéis, bigode e sobrancelhas juntas.
Ainda em casa, uma amiga não queria que eu saísse daquele jeito. Ela olhava para mim com pena, como se olhasse para uma filho deformado no primeiro dia de aula. Ela tinha medo, por mim, da reação das pessoas. Na festa, estranheza, admiração e curiosidade (alguns não sabiam quem tinha sido a Frida). Eu incomodava as pessoas. E o tempo todo aqueles olhares de: ‘como você teve coragem?’ Olhares que me perseguem até hoje, para os quais eu me justifico.
Eu me olho no espelho e gosto (muito) do que vejo. As pessoas que me olham costumam gostar também. Eu me acho bonita com todas as minhas diferenças e imperfeições e não ‘apesar’ delas. Não as lamento. Tem dias em que me acho um absurdo de linda outros acordo ‘torta’. Normal. Mas entendam: o fato de ter me ‘travestido’ de Frida foi visto pelas pessoas como uma negação à beleza que carrego. E assim vi que eu tinha consciência da beleza mas não tinha idéia da dimensão dela na minha imagem projetada ao mundo. Pesa muito. E numa era ditada por imagens, modelos, técnicas, fórmulas, melhorias, excelências, que espaço resta para a nossa verdade? Caramba, era só uma fantasia!
Não me sinto obrigada a ser bonita o tempo todo. Também não sou contra modificações, simples ou radicais: maquiagem, cirurgias, botox, próteses, exercícios, cremes, químicas. Nada disso. Muito pelo contrário. Toda essa tecnologia a favor da auto estima é resultado de muito trabalho e pesquisa de alguém e ajuda muito os que precisam ficar mais confortáveis com a própria aparência. Mas os exageros são perigosos e alguns não compreendem – na busca pelo belo – que podem se perder. Eu me perdi, mas num caminho inverso e com volta. Mergulhei numa feiúra que foi embora quando o rosto foi lavado e os cabelos foram soltos e, quando emergi, sabia mais do que nunca quem eu era. Me reconheci, como sou, no espelho. E, felizmente, perdi minha verdade por instantes apenas, numa festa à fantasia.
Frida foi uma experiência única. Foi mais que a brincadeira. Serviu não só para que eu continuasse a me assumir bela, mas também para entender que as características físicas são um traço muito, muito importante de nossa personalidade. Foi decisiva para refletir sobre qualquer interevenção definitiva que eu possa vir a fazer para modificar a minha imagem um dia. E também para saber que posso, e devo, usar sempre a minha imagem ao meu favor, ainda que não vire escrava disto. Com ela entendi que, belo ou feio, seja lá o que isto signifique, o importante é não se perder numa imagem que não é a sua.

