Arquivo para Novembro, 2008

30
Nov
08

Do dia em que pus a imagem à prova

Por estes dias a Frida faz um ano. Pensei em republicar o ‘poste’ que escrevi na época, mas republicar é uma idéia que não me agrada muito, não sou mais eu, passou o tempo, sou mutante. Só que a Frida me marcou tanto, e a todo mundo, que volto a escrever sobre ela mais uma vez, uma re-edição do ‘poste’ original, eu diria.

Não me lembro exatamente de onde surgiu a idéia de me fantasiar de Frida Kahlo. Eu sou completamente fascinada por fantasias e festas à fantasia, e não sou do tipo que me aproveita delas para por a sensível libido masculina à prova, até porque nunca precisei disto. Então, minhas fantasias sempre são o resultado de algum devaneio pessoal, combinado com acessórios mil que tenho em casa (um baú deles), criatividade, maquiagem, vontade e muita, mas muita cara dura. Porque melindrosa, enfermeira, anjinha e coelhinha todo mundo ama. Mas uma mulher de bigode… bem…

s30100112Era a festa certa para a Frida aparecer: presença de muitos amigos, vontade de fazer graça, festa pequena e restrita. Mas o resultado… quantos não foram os olhares de espanto para cima de mim, uns com pena da feiúra retratada e alguns mais assanhadinhos pensando estar diante da Salma Hayeck (que interpretou a Frida no cinema), apesar de eu medir uns bons muitos centímetros a mais que ela e que a própria Frida. E o que eu achava que fosse apenas curtição se tornou um verdadeiro maremoto de questionamentos.

O começo da tormenta, dois fatos: eu, bonita, Frida, feia. E daí que eu não estava nem aí em me “enfeiar”? Eu queria mesmo era curtir! Como fiz, com saião, tranças, flores, anéis, bigode e sobrancelhas juntas.

Ainda em casa, uma amiga não queria que eu saísse daquele jeito. Ela olhava para mim com pena, como se olhasse para uma filho deformado no primeiro dia de aula. Ela tinha medo, por mim, da reação das pessoas. Na festa, estranheza, admiração e curiosidade (alguns não sabiam quem tinha sido a Frida). Eu incomodava as pessoas. E o tempo todo aqueles olhares de: ‘como você teve coragem?’ Olhares que me perseguem até hoje, para os quais eu me justifico.

Eu me olho no espelho e gosto (muito) do que vejo. As pessoas que me olham costumam gostar também. Eu me acho bonita com todas as minhas diferenças e imperfeições e não ‘apesar’ delas. Não as lamento. Tem dias em que me acho um absurdo de linda outros acordo ‘torta’. Normal. Mas entendam: o fato de ter me ‘travestido’ de Frida foi visto pelas pessoas como uma negação à beleza que carrego. E assim vi que eu tinha consciência da beleza mas não tinha idéia da dimensão dela na minha imagem projetada ao mundo. Pesa muito. E numa era ditada por imagens, modelos, técnicas, fórmulas, melhorias, excelências, que espaço resta para a nossa verdade? Caramba, era só uma fantasia!brasilia-2111-030-cut

Não me sinto obrigada a ser bonita o tempo todo. Também não sou contra modificações, simples ou radicais: maquiagem, cirurgias, botox, próteses, exercícios, cremes, químicas. Nada disso. Muito pelo contrário. Toda essa tecnologia a favor da auto estima é resultado de muito trabalho e pesquisa de alguém e ajuda muito os que precisam ficar mais confortáveis com a própria aparência. Mas os exageros são perigosos e alguns não compreendem – na busca pelo belo – que podem se perder. Eu me perdi, mas num caminho inverso e com volta. Mergulhei numa feiúra que foi embora quando o rosto foi lavado e os cabelos foram soltos e, quando emergi, sabia mais do que nunca quem eu era.  Me reconheci, como sou, no espelho. E, felizmente, perdi minha verdade por instantes apenas, numa festa à fantasia.

Frida foi uma experiência única. Foi mais que a brincadeira. Serviu não só para que eu continuasse a me assumir bela, mas também para entender que as características físicas são um traço muito, muito importante de nossa personalidade. Foi decisiva para refletir sobre qualquer interevenção definitiva que eu possa vir a fazer para modificar a minha imagem um dia. E também para saber que posso, e devo, usar sempre a minha imagem ao meu favor, ainda que não vire escrava disto. Com ela entendi que, belo ou feio, seja lá o que isto signifique, o importante é não se perder numa imagem que não é a sua.

25
Nov
08

Pseudo prosa tributária

Eu queria fazer uma poesia para você, mas eu não sei, não sei fazer. É tudo tão misturado, choro, riso, falta, vontade – e não consigo por as coisas em ordem, com rima ou métrica ou cálculo. Na minha cabeça se acotovelam tributo, alíquota, lembrança, língua, gozo, hipótese, elouqüência. E no meu coração, só ausência, isenção, não-incidência. Então perdoe-me, por minha angústia e por minha incompetência.

24
Nov
08

saldo positivo

Tenho que começar a crer mais nestas coisas de marketing pessoal e tals… foi só eu escrever um ‘poste’ dizendo que eu não tinha muita coisa interessante pra dizer que as estatísticas baixaram consideravelmente. Outra coisa que me fez pensar no assunto foi ler lá numa das paredes da esplanada que temos um Ministério do Desenvolvimento e do Combate à Fome. Achei meio negativo. Precisar de um Ministério para combater a fome é assumir uma incompetência tamanha, do governo e do povo. Enfim…

O saldo do fim de semana foi muuuuito positivo. Alguns pontos fortes:

1) Ver Brasília verde (pq só me lembrava dela em épocas de seca). Estava tudo lindo.

2) Olhos extremamente atentos a mim no congresso na hora da minha apresentação. E, sem modéstia, mandei MUITO bem.

3) Encontrar com um dos professores mais queridos da minha vida, pessoa linda e cheia dE sotaquE, que não via há um tempinho, ser reconhecida (professores nem sempre se lembram dos alunos), ganhar um beijo e um abraço.

4) Ser muito bem recebida em duas casas, da minha família de sangue e de uma família do coração. Se sentir querido NUNCA é demais (bom pra lembrar de sempre retribuir este carinho a todas as pessoas).

5) Fazer turismo na chuva, rindo da própria desgraça (!), tirando mil fotos, pagando mil micos (não os micos normais de turistas, mas outros, que a gente sempre inventa).brasilia-2111-091

6) Me emocionar mais com tudo do Niemeyer que eu já conhecia e que eu ainda não conhecia (bom pra lembrar sempre que, como ele diz, “é tudo muito simples”).

7) Comida mexicana, comida nordestina, “sertanejo universitário” (é… ponto forte apenas no sentido de experiência antropológica), pub com cervejas e rock’n'roll ao vivo, pão de queijo (mesmo, feitos pra mim) e, é claro, cosmopolitans.

8.) Duas mensagens que chegaram ao meu celular, assim, do nada. Tá bom, essa não tem nada a ver com Brasília, mas eu estava lá, desligada da minha rotina, e… então… é sempre bom, muito bom.

19
Nov
08

Rumo ao planalto central

Os últimos dias têm sido corridos, e ainda bem que Rodrigo apareceu aqui com o ‘poste’ decente, porque, de mim, vocês não devem esperar muita coisa por enquanto (alguns se confundiram: o ‘poste’ abaixo não é meu – com o tempo vocês se acostumam!).

Nos próximos dias apresentarei um trabalho em um congresso, que acontece uma vez ao ano, e esta será a segunda vez que vou. Quis muito ir para o congresso, e mais ainda para Brasília. Demorou tanto para sair o resultado da seleção dos trabalhos, mas o meu estava lá! Aí corre pra comprar passagem, liga pro amigo, faz mala, aplica prova, corrige prova, compra suco de cranberry, lê o artigo, monta apresentação, dá conta de mil coisas… mulher é assim. Acho que todo mundo é meio assim.

E aí tenho a infeliz idéia de futicar na lista dos trabalhos aprovados no grupo onde me inscrevi. Como a ignorância é santa! Não sabia onde estava me enfiando e agora eu sei. Medo. Tem os links pros Lattes da maioria (eu tenho Lattes, mas não mandei o link porque não lembrava na hora, está desatualizado, esqueci a senha, etc), fui dar uma conferida e, se eu fosse do tipo que diz essas coisas, diria que só tem P*CA GR*SSA no grupo, enquanto eu sou um mero sutilindo. O que me alivia é que o trabalho que mandei levou um 10 do Bento e 10 o Bento só dá pra ele e pra Deus. Me lembro bem que nunca me senti tão deusa quando no dia em que recebi o trabalho corrigido com um 10zão na capa! Mais até do que no dia da minha defesa, em que também fui aprovada com 10, com o Bento na banca.

O que me consola é que será um dia de trabalho e o resto de muita diversão, Cosmopolitans (1,8l de suco de cranberry rende um bocado de Cosmopolitans) e sei lá mais o que que meu querido que vou visitar vai aprontar pra mim. Bom, né?

Até a volta!

PS: cliquem no link do sutilindo. Vai pra um capítulo (pra mim o melhor) do livro Feliz 1958: o ano que não devia terminar, delícia de ler. É a parte decente do ‘poste’.

14
Nov
08

Quanto Valle o show?

Marcos Valle

 

Marcos Valle tem 65 de praia. De longas madeixas parafinadas, saradão, parece um irmão do Oskar Metsavaht, inclusive na forma de se portar e de fazer arte. Segundo Carlos Lyra, ninguém segurava o cara em Ipanema nos idos de 60 e 70. O mulherio ficava indócil mesmo.

Era a mascote do bonde da bossa nova. Compôs “Samba de verão” aos 21, e depois disso várias parcerias de sucesso com o irmão Paulo César.

Junto com Jobim, foi dar a cara à tapa lá em NY a fim de apresentar aos gringos a nossa bossa. Conseguiu e abriu as portas do mundo para a boa música brasileira. Além de ganhar lá o sotaque soul em suas novas composições.

Quando eu tinha 8 anos, vibrei quando assisti no fantástico a música “Estrelar”. Foi quando o Brasil percebeu que Marcos, já era a muito tempo um pop soul bossa man. Além de grande amante dos esportes e da vida saudável. Outra música dele que me encantava nessa época foi “Um novo tempo”. Quem não se lembra de todos os artistas da globo cantando de mãos dadas no fim do ano?

Até hoje ele inova. Em 2005 lançou “Jet Samba”. Que foi a consagração do Drum’n Bossa. Não sei se ele gostaria que se chamasse assim. Pelo menos o Benjor nunca gostou do termo Samba-Rock. Jet-samba, pra quem curte música instrumental, é uma jóia.

Mas estou aqui pra falar do Conecta. Album(DVD) lançado neste ano. Com vários convidados, entre eles, Marcelo Camelo, que é bem Marcos Valle, e Fino Coletivo. Destaque para as músicas“Nem paletó nem gravata” e “Boa hora”. Gravado no cinemateque, O DVD é a coisa mais simples que existe. Marcos Valle não precisa de mega-produções e nem de lotar o maracanã. Sua música é boa por si só. Em qualquer parte do mundo.

13
Nov
08

Sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga veritas”)

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra , tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura. Mas, naquele momento, aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

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OFF POSTE: no meio de uma semana de trabalheira só, eis que cai um livro sobre a cama e se abre na epígrafe (dificilmente um livro cai aberto nas primeiras páginas), e tem um trechinho (eu acho que é um trecho) do poema “Uma pedra é uma pedra”, do Ferreira Gullar, que a adora, então vou deixar aqui pra ela (e pra quem mais quiser). Beijos, bom fim de semana!

“… o homem é uma aflição que repousa

Num corpo que ele de certo modo nega

Pois que este corpo morre e se apaga

E assim o homem tenta

Livrar-se do fim que o atormenta

E se inventa”

09
Nov
08

Carta a Bebel

Querida, estou aqui ansiosa para te contar da viagem, antes que você chegue da sua! Foi tudo assim: primeiro eu não consegui aquela autonomia toda que você recomendou. Não deu, Bebel, e, ainda bem, deu tudo certo. É que o trecho de ida pareceu, roubando suas palavras, um mini drama kafkaniano. Por que? Porque, de repente, estava eu na beira da estrada, de mochila (de mochila, Bebel, logo eu… uma atriz francesa de cinema mudo… de mochila!) com o sol no zênite, completamente exposta, ao sol, ao mundo, e ao que estaria por vir. E aí que ele foi me encontrar e me encontrou paralisada: eu não sabia se era medo dele, de mim, ou pequeno trauma da péssima viagem. E ele, bem, nem deu pra pensar no que ele estaria pensando. Foi um abraço meio sem jeito, quase formal. Só sei que eu não era bem eu, Bebel, eu era eu descabelada, tensa, com sede, cansada e muda. Pensei em você e nas malas perdidas no sábado. É claro que menos pior. Sei que me senti meio nua, mas minhas roupas estavam ali e eu não precisaria esperar o sol se por. Pedi a ele meia hora sozinha - sei que é a coisa mais estranha ir ansiosamente ao encontro de alguém e cinco minutos depois que encontra, pedir meia hora sozinha. Mas eu precisava encontrar a atriz francesa de cinema mudo, pois a coitada se escondera em algum canto depois daquela confusão. Finalmente, fui ao encontro dele. Eu, observadora, sem jeito, oblíqua, não sabia onde por as mãos. Todas as formalidades, identidade, CPF, comprovante de residência. Almoço e algum álcool, que sempre ajuda. Limão e pimenta. Palavras, sotaques, vocabulário. Não, Bebel, três línguas é coisa tua, vamos com calma. Depois, uma tarde de mais limão e pimenta, if you know… e preguiça, muita preguiça. Ah, Bebel, você sabe, né? Que tem certas coisas que não se explicam, não se desenham, só se sentem. E sentir naquele cenário mágico ainda foi um privilégio. E antes que a tarde do primeiro dia terminasse, deixei a atriz francesa de cinema mudo ir pro seu canto, que ela já não fazia mais falta por ali. Éramos só nós, entremeados de uma ou outra curiosidade, num exercício contínuo de conhecimento e reconhecimento. Uns medos iam embora enquanto outros surgiam e se dissipavam em sessões e mais sessões de carinhos. E mais tarde todas aquelas ruas, os becos, os cantos, os beijos, o silêncio rompido pela voz dele me chamando com os erres na ponta da língua, diferente dos erres raspados do seu amorrrrrrr . E foi assim que tudo se deu até a partida, Bebel, a partida que tanto dói, que tanto rouba, e que deixa uma coisa até então desconhecida. É aqui que tudo começa, Bebel, onde tudo acaba. Até aqui foi sonho. Não sei uma hora será realidade. Por enquanto vivo um momento daquele que acontece pela manhã quando a gente não sabe se ainda está dormindo ou se já acordou. Mas sua amiga está bem, don’t worry. Muitas saudades de você, Bebel. Agradeça à Shica pela preocupação. E quando encontrar seu amorrrrrrr diga a ele que eu não esqueci da lição: “Distância? Que distância?” Se Rio - Tel Aviv não é distância, nenhum destino é. Um beijo, Bárbara H.

06
Nov
08

Será que entendi bem?

Foi na terça-feira, creio eu, que, zapeando na TV tarde da noite, assisti a um trecho da entrevista do Pedro Cardoso no programa Conexão Roberto D’Ávila. Não sei se todos estão sabendo da polêmica que este ator levantou, então, é mais ou menos o seguinte: ele resolveu abrir o verbo contra a pornografia na televisão, estendendo a pornografia para muito além dos limites que a minha vã filosofia imaginava, indo desde cenas insinuantes de iminência de relação sexual nas novelas da Globo a desfiles de lingerie, shortinhos, rebolados, e outras coisas que desconheço por quase não assistir a programas de TV. Pelo que eu entendi, nem as ‘bailarinas’ do Faustão escapam. A banheira do Gugu, se é que ainda existe, estaria com visto permanente para o quinto dos infernos.

Até aí, eu até entendo. O cara não gosta, acha feio (eu também acho muita coisa hor-ro-ro-sa), e ponto. O pior é a argumentação usada para fundamentar seu ponto de vista: de que a classe artística é que sofre com isso. Nos seguintes termos, prestenção: que as ‘atrizes’ são exploradas pelos diretores, que seriam conexões entre a obra artística e o empresariado, não tendo voz ativa, portanto para dizer um ‘não, não faço, porque não acho correto’, quando a nudez ou a insinuação dela não tiver lugar na obra. Teve a infelicidade de comparar este processo a uma montadora de veículos: o funcionário da montadora não tem o que fazer se o dono fornece a ele material de baixa qualidade para que ele produza os veículos.

Aí é que eu acho que o Pedro se enrolou. Essa historinha que ele contou não cola, né? Por que ele não fala a verdade e diz realmente o que pensa sobre a baixaria na TV? Tem horas que esse discurso da ‘exploração da imagem feminina’, da ‘visão da mulher como objeto’, não cola. Não cola mesmo. Somado à teoria da exploração da força de trabalho então, é de morrer. Se a moda pega, qualquer dia teremos a reforma trabalhista da classe artística, limitando a autonomia da vontade nos contratos, para proteger as pobres coitadas atrizes que trabalham arduamente por seu pão de cada dia, nada podendo fazer para mudar a situação. Algo estranho, não?

04
Nov
08

Pela rua em novembro

De tempos para cá as áreas comerciais em grandes centros urbanos têm me causado alucinações. Depois que passa o dia das crianças e a decoração de natal invade as lojas, e mais pessoas invadem as ruas, tudo parece ficar maior, mais verde, vermelho e dourado. E então vêm as alucinações. Paro e fico olhando para aquilo tudo e imaginando: para onde vão todos estes óculos vagabundos quando se quebram, todas as gambiarras quando as luzes se queimam, os papais noéis que desbotam, os embrulhos, as pilhas, as pulseiras que arrebentam, capas de celulares. Imagino tudo em volumes. Grandes volumes invadindo as casas, ocupando espaços, virando lixos. Tudo se produz tanto e com tanta facilidade e com tão pouco preço, que a gente compra, compra e compra, sem saber porque está comprando. Onde se entulha tudo e como se descarta tanto?

A minha consciência sucumbe no natal. É um ano inteiro desviando da China e, de repente, olho para o carrinho do supermercado e, ao lado do pão, da manteiga, do iogurte e da pasta de dente, vejo uma guirlanda, três anjos de plásticos, um papai noel zarolho e um Rudolf esquálido. E de repente, eu lembro da árvore de natal da minha avó: tinha uma gambiarra com lâmpadas antigas, alguns poucos enfeites com muita história pra contar, um do primeiro natal da minha mãe, outro do primeiro natal do meu tio, e outro do primeiro natal da minha tia. Tinha uma bola azul com uma estampa do Pato Donald, um peixe,  um árabe no camelo (devia ser um dos três reis magos) e uma estrela de alumínio rosa. E aquilo era guardado com todo cuidado para o ano seguinte. E a árvore de natal da casa dela era linda! Sem nostalgias, que o relato não segue por aí, mas concluo que em termos natalinos, éramos bem mais ecológicos.

Na semana que passou, sonhei com a onda, e nem em crise de rinite eu estava. Já contei a história do pesadelo da onda aqui? Acho que não, um dia eu conto. Resumindo, é sempre uma onda gigante que vem para cima de mim, um desespero que me fez morrer de medo do mar depois de velha. Mas ao menos a onda que veio ainda era de água. Depois das alucinações de olhos abertos em verde, vermelho e dourado em grandes volumes, tenho medo dos pesadelos que possam vir por aí.