13
Nov
08

Sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga veritas”)

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra , tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura. Mas, naquele momento, aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

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OFF POSTE: no meio de uma semana de trabalheira só, eis que cai um livro sobre a cama e se abre na epígrafe (dificilmente um livro cai aberto nas primeiras páginas), e tem um trechinho (eu acho que é um trecho) do poema “Uma pedra é uma pedra”, do Ferreira Gullar, que a adora, então vou deixar aqui pra ela (e pra quem mais quiser). Beijos, bom fim de semana!

“… o homem é uma aflição que repousa

Num corpo que ele de certo modo nega

Pois que este corpo morre e se apaga

E assim o homem tenta

Livrar-se do fim que o atormenta

E se inventa”


10 Respostas para “Sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga veritas”)”


  1. Novembro 13, 2008 às 11:38 am

    Oi Mélia!

    Divagações de bêbado costumam ser ótimas. O meu tio bebum por exemplo fica repetindo que “o mundo gira”. Apesar do óbvio, não é que o infeliz faz a gente pensar?!

    Sobre o Gullar, sou supeita realmente. Adoro! Depois que o descobri, leio tudo que encontro sobre sua obra e as crônicas de domingo na Folha.

    E o poema acima tem muito a ver comigo….

    Obrigada e um beijão no seu coração!

  2. Novembro 13, 2008 às 2:11 pm

    etílica e elítica são palavras bem parecidas. e elítica é aquilo que contém ou em que há ELIPSE. e segundo o aurélio, elipse é:
    [Do gr. élleipsis, 'omissão', pelo lat. ellipse.]
    S. f.
    1. E. Ling. Omissão deliberada de palavra(s) que se subentende(m), com o intuito de assegurar a economia da expressão. Ex.: & &
    2. E. Ling. Omissão de parte de uma sentença, subentendida com base na estrutura gramatical.
    3. Geom. Lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano têm soma constante; interseção de um cone circular reto com um plano que faz com o eixo do cone um ângulo maior que o do vértice.

    (etc.)

    Assim, parecidas são também pelo jeito “cambraio” de os etilistas (não elitistas, aque aí é outra história) se locovoverem, ou pela supressão de coisas subentendidas que só os bêbados compreendem.

    Por extensão, uma viagem “elítica”, uma conversa “elítgica”, piada interna.

  3. Novembro 13, 2008 às 3:00 pm

    Sábias palavras vindas do fundo de uns copos…rsrs…

    Por isso que dizem que onde a cachaça entra a verdade sai! o cara é um filósofo moderno contemporâneo minha amiga Maria! E como tava encachaçado, falou com sua profunda verdade! rsrs…

    Saudades de ti no meu blog amiga, qdo der, aparece por lá!
    Bjs

  4. Novembro 14, 2008 às 9:38 am

    Ai da gente se não nos inventamos…e o ontem? Deveríamos esquecê-lo? Nem sei…porque o ontem é a gente mesmo…de momentos memoráveis, de momentos esquecíveis…gostei do novo layout.
    Beijo

  5. 5 Maria
    Novembro 14, 2008 às 2:07 pm

    É Rê, o mundo gira, a catraca gira, a fila anda, hahahaha… beijo bem grande pra vc também.

    gustavão, isso aí que vc tomou vende na farmácia sem receita?

    Robs, ‘uns copos’, pois é! Já passei lá, mandando ver!

    Keila, olha, confesso que esquecer por completo o ontem também não é legal. Se fosse assim, não me lembraria das palavras do bebum. Temos arrumar a casinha de vez em quando, fazer uma faxina, jogar o lixo fora. É, agora tem eu aí em cima, essa foto é muito legal, né? Bj!

  6. Novembro 14, 2008 às 4:01 pm

    Cara Maria,
    Complementando o raciocínio do bêbado filósofo: “Vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro”…ou remoemos o passado…
    Beijo e ótimo fds!
    PS: O seu novo visual ficou ótimo…está com mais “cara” de Maria!

  7. Novembro 14, 2008 às 6:56 pm

    Gostei da nova página. Bem legal.
    Bêbados são chatos, mas as vezes eles dizem coisas que nos fazem pensar. As não tem nexo, mas quando isso acontece, é puramente uma angustia ou algo que ele gostaria de dizer enquanto sóbrio. Esses bêbados…

    beijo

  8. 9 Maria
    Novembro 14, 2008 às 9:48 pm

    Altamir e Guilherme, obrigada! Então, respondendo aos dois: aprendi com um amigo que não se olha nos olhos de um maluco, porque ele se apaixona. :) Tenho aplicado a teoria também aos bêbados, e têm funcionado. Enfim, eu não olho nos olhos deles, mas costumo escutá-los! Bjs!

  9. Novembro 19, 2008 às 6:41 pm

    O indivíduo podia até estar bêbada, mas o que ele disse tem total sentindo. Nós podemos mudar o ontem, então para que pensar no que passou? O lance é saber fazer um hoje diferente para refletir em coisas boas no futuro.

    Beijos e obrigada pela visita


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