Muito mais que amante e cúmplice eu era espectadora de suas histórias, incansável, ávida, sempre sentada na primeira fila. Aqueles momentos em que descansávamos nus, entregues e despretensiosos, jamais sairão da minha memória porque eu olhava para o teto imaginando as coisas que ele me contava, e assim criei histórias minhas e dele dentro da minha cabeça, onde as personagens principais eram infinitas mulheres. Lembro-me que por muitas vezes ele se desvencilhava dos meus braços e quase num salto, se ajoelhava nu na cama, gesticulava, interpretando, e me arrancava risadas, e outras ajeitava o lençol no meu corpo, moldando o figurino de uma de suas personagens e me fitava. Causava em mim uma timidez que fazia com que poucos segundos durassem uma eternidade. Numa ocasião, surgiu como trilha sonora do momento, dessas músicas que entram pela janela vindas não se sabe de onde, Foi um rio que passou em minha vida. Ele cantarolou um ou dois versos e seu semblante mudou completamente, não precisei perguntar, ele emendou: nunca vou me esquecer dela. Falava de Clara Nunes, numa apresentação na quadra da Portela, num ano em que eu ainda sonhava em nascer. Ela não era bonita, era magnética. Te lembra dela? Clara Nunes morrera eu ainda era pequena. Era dessas mulheres inalcançáveis e etéreas, como Clara Nunes magnética presente em sua memória como eterna musa do samba, que eu tinha ódio. Tanto que o beijei com raiva e o comi com intenção de me marcar em sua memória como inalcançável e etérea. Tenho certeza, consegui.
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Carnaval que termina, ano que começa, inspiração que volta. E que fique!

Quase tudo é um livro de memórias. Ela mesmo escreve sobre episódios da sua vida, os mais importantes, sem ter aquele peso que eu sempre acho que as biografias têm – excesso de sofrimentos, altos e baixos, escândalos, essas coisas. Danuza, exceto pelo grande sofrimento da perda de um filho, não teve esses altos e baixos que fazem vender biografias. Tampouco rendeu muitos escândalos. Ela simplesmente viveu despretensiosamente. E assim, ao acaso, esteve presente como espectadora em vários acontecimentos relevantes na cultura e na política brasileira.

Daqui a menos de um mês, outra festa à fantasia.
É o título do livro escrito por Lionel Shriver, que eu terminei de ler em outubro passado. Depois que comecei o blog, praticamente todo os livros por mim lidos vieram a ser comentados aqui, exceto a minha literatura específica de trabalho. Mas este… bem, este demorou um tempo para ser digerido. Não faz muito tempo a