Arquivo para Março, 2009

29
Mar
09

O vento que venta aí, venta em todo lugar

Foi um encontro casual de quase todo o lado feminino de uma turma. Estávamos todas na Casa da Si, bebendo, falando, falando, (algumas) fumando, bebendo e falando.  De repente, não sei de onde, surge o assunto. Também não me lembro que assunto foi, nem porque. Mas do alto de sua recém-maternidade, Tatá manda essa: … e todo mundo aqui pegou o meu marido!

Opaaaaaaa, eu não! Eu nunca peguei teu marido não, disse.

E ela: não? Então foi só você, Maria!

26
Mar
09

Para ler e para assistir

Para afastar o baixo astral causado por um percalço da vida profissional, passei as duas últimas semanas devorando filmes e livros como louca. E um de cada, em especial, fizeram este coraçãozinho aqui bater mais aceleradamente.

O livro é Vale Tudo – O Som e  Fúria de Tim Maia, que consegui terminar no final de semana passado. Agora posso dizer que definitivamente eu não sabia nada sobre o Tim Maia até ler este livro. Escrito por seu amigo “nelsomotta”, a biografia prima por ressaltar a genialidade de Tim sem fazer escândalo com as suas fraquezas. Não se poderia esperar menos de um amigo. Nelson Motta é perfeito neste ponto. O livro em si não é uma obra prima – achei a escrita do Nelson Motta bem Nelson Motta. Não sei explicar, mas acho o Nelson Motta meio mala, meio bobo às vezes, apesar de merecer todo meu respeito por ter conseguido ser amigo do Tim Maia. Mas a alma de Tim preenche espaços, e consegue fazer o livro mais grave, mais agudo, mais tudo! Maravilhoso. Agora quero conhecer mais desse Tim que existia antes das baladas bregas que deixou de herança pra minha memória.

O filme é o ganhador do Oscar de melhor filme neste ano – Slumdog millionaire (Quem quer ser um milionário?) – é divertido, é triste, é instigante, sem se firmar em específica diversão, específica tristeza ou específica provocação. É um equilíbrio de emoções com surpreendente resultado. Mas se o filme fosse meu, o fim seria um pouco diferente (não, eu não tiraria o prêmio final do menino – não sou assim tão má). Esta é minha opinião a respeito. Uma muito melhor você pode encontrar aqui no Cinéfilo, eu? Corre no cinema pra ver. Vale a pena.

22
Mar
09

É saudade, só isso. (ou: devaneios de uma madrugada rock’n'roll)

Não, não é só isso. Saudade não é SÓ. Saudade é muito, sempre, ocupando espaço, ainda que diminuto. São pequenas coisas, olhar, palavra, gesto, medo. O choro que houve na despedida. E o que não houve. O silêncio, não de ausência de palavras mas de presença de compreensão. Sorriso. Risada. Palavra.

Saudade sou eu traindo meu desprendimento.

Mas é saudade, só isso.

Um beijo.

18
Mar
09

webcam

- hum, que decote

- que decote?

- estou vendo. linda

- vendo o que? – ela diz abrindo um pouco mais a blusa.

- não faz isso… vc me intoxica em plena segunda-feira

- é pelas noites atormentadas por lembranças… boas lembranças

- não fale assim de quem cuida de vc

- e vc cuida de mim?

- claro que cuido

- vi que leu meu texto, gostou?

- sim

- …

- saudade

- também

- vem pra cá pra minha camona grande e fria

- vou

- vem mesmo?

- você vai ter que vir aqui me buscar

- cavalo branco?

- claro

Dois minutos e ele saiu da cama, bateu na porta ao lado do quarto, entrou e chamou:

- anda, vem

- já vou querido, estou terminando uns downloads aqui

- fecha essa blusa!

16
Mar
09

Alguma coisa

Pelo menos o Vaticano abriu a boca. Pelo menos isso. Lado a lado o texto do L’Osservatore Romano e a tradução (péssima) do Google, porque my italian, trouble (sim, isso é piada interna), me fizeram crer de que a igreja católica, em suas mentes mais apuradas filosoficamente falando, não consideram a questão tão preto no branco como anunciou o bispo excomungador. Isso é bom. Não é o suficiente, mas é bom. Digo que não o suficiente porque discussões filosóficas são lindas, mas na hora da prática todo mundo tira o seu da reta.

A todo tempo aparecem dilemas morais na nossa frente e o desta menina foi apenas mais um. Mas alguma coisa há que se fazer. Dilemas morais não servem apenas para inspirar de discussões estéreis. Dilemas morais causam dor, destroem vidas, existem. São fatos. Dou um ponto pra igreja, mas o placar dela andava 12 a zero comigo, então, ainda espero melhora.

Este, caso em especial, mostra muito mais do que uma menina de trinta e poucos quilos grávida de gêmeos. Eu, por inúmeros motivos, não falo sobre aborto. Não, eu nunca abortei, nem sequer fiquei grávida alguma vez, não há nenhuma questão pessoal nisto. A verdade é que me sinto incapaz – emocionalmente, filosoficamente, juridicamente e até fisicamente – de falar sobre o assunto, e pra dar opinião de merda, prefiro calar a boca.

O fato, no entanto, me fez refletir sobre as coisas que sei um pouquinho, que vão além da questão individual da menina, nas quais permito meter minha colherinha de café : corrobora a minha tese de que vivemos num país onde não há liberdade, não há escolha, simplesmente porque há de se ter um mínimo material para que se tenha liberdade, e todo mundo sabe que muita gente não tem. Consequentemente, não temos democracia, ou, se temos, é pra poucos. Endossa a miséria à qual estão expostas nossas crianças, ainda que políticos venham à TV dizer que o índice de analfabetismo cai, e que todas vão à escola. Balela.

Não há quem as apóie, não há quem apóie suas mães. E ainda por cima a cultura da “mulher casada” ainda é mais forte do que se imagina e sim, caro leitor, isso acontece nas melhores e nas piores famílias – mulheres que mantém seus homens a todo custo, ainda que sejam violentadas suas próprias filhas ou elas próprias. Por quantas vezes em atendimento popular ouvi de uma mulher, com lágrimas nos olhos: “sim doutora, mas foi só uma vez”? Não foi, eu sei que não.

Mundo hipócrita esse em que vivo.

.

Agradeço aqui os selos enviados pela Mirian. Não vou trazê-los (Mirian, desculpe-me, vou quebrar a brincadeira) mas quem quiser ver, clique lá no Caldeirão, e aproveite também as histórias da Bruxa!

12
Mar
09

Pulp fiction

Porque você sabe o que fazer quando se instala o silêncio.

Ah, você sabe.

Me põe sob o foco da lua, sou tua. Você sabe.

08
Mar
09

Mais uma história de amor

La Spezia, 1944. Ouviu que seu marido desertara na África, voltara à Itália e se encontrava num campo de prisioneiros próximo. Mas ele sabia que não ficaria muito tempo ali – os prisioneiros seriam levados para a Alemanha e o que se imagina é que o destino não seria dos mais generosos. Passou a visitá-lo toda semana, levava sempre um agrado, o que era possível naquela época difícil. Certa vez, um pedido: traga o menino, preciso vê-lo. Não sei por quanto tempo ainda fico aqui, nem o que será daqui para frente.

No dia em que ela levou o menino, ele já havia partido.

Enlouquecida, ela voltou à casa dos pais, deixou o menino e foi atrás dele. Como quase não havia dinheiro em circulação, seu pai lhe deu um brilhante para que fizesse uso quando precisasse. Partiu então, a pé, em direção ao norte, parando aqui e ali, perguntando sobre o grupo de prisioneiros, os pés em carne viva, passando por todos os perigos que uma mulher sozinha em tempos de guerra pode passar, até chegar numa barreira alemã, onde um oficial a interrogou: para onde vais? Estou a procura do meu marido, respondeu. E o oficial, debochando, disse: essas putas italianas sempre atrás dos seus homens. Aquilo a machucara muito mais do que os dias e dias que vagava a pé rumo ao norte da Itália. Não teve outra reação na hora senão a de voar com os dentes no pescoço do oficial alemão. Foi preciso a força de dois homens para apartá-los e, após uma pancada que abriu-lhe o supercílio, desfaleceu. Naquele momento, foi presa num campo para mulheres.

Mas havia por ali, juntamente com os oficiais alemães, alguns oficiais italianos. Um deles, certo dia, perguntou-lhe o nome. Ela respondeu-lhe sobrenome e nome, e ele ficou surpreso de saber que estava diante da filha de um cantor lírico que admirava. Coisa de italianos. O oficial então deu um jeito de tirá-la dali, e ela regressou.

Rumo à Austria, o trem que transportava os prisioneiros, dentre eles seu marido, fora atingido por um bombardeio, ainda na Itália , e ele um dos únicos que conseguira sair com vida. Fugiu para uma fazenda, conseguiu algumas roupas e partiu, entre caminhadas, caronas e trens, de volta para casa.

De volta a casa, ela foi advertida pelo pai a sair de La Spezia com o filho, pois a cidade era frequentemente bombardeada. Foi viver então no litoral, uma cidadezinha minúscula, chamada Monterosso al Mare, com seu filho e seu cão, Ruffo. E o esperava todos os dias, que em épocas de guerra, só o que resta é esperança.

Uns dias depois, enquanto lavava roupas num local púbico, Ruffo a encarava, resmungando. O barulho de um apito de trem ao longe, e Ruffo latindo cada vez mais alto, a fez virar o rosto para o trem que chegava. Ao ver que seu marido estava a bordo, segurou as saias e correu rumo à estação para encontrá-lo, num misto de paixão e desespero.

Quem me contou a história me disse que ela chegou antes do trem!

Tanto já ouvi falar dela, mas esta história, talvez a mais bela de todas, só fui saber na última semana. Entre tulipas de chopp e muito calor, o assunto era o amor, a entrega, o desapego. Na verdade, falávamos de como nos acomodamos na nossa vida fácil de internet, ar condicionado, seriados americanos, fim de semana na serra e férias na praia, e achamos que o amor é algo que milagrosamente vai chegar e se encaixar à rotina pré-existente. Tudo errado. O amor não se encaixa. Ele ocupa o lugar maior e o resto é que se adapta.

- Você faria o mesmo, Maria, ele me disse, tenho certeza.

- É que para enxergar o que interessa, temos que nos livrar do inútil, eu respondi, e disso, todo mundo tem medo.

Ela ainda é viva, aos seus 90 anos, lá na Itália, e eu só a conheço por fotos e histórias. Não sei se terei a oportunidade de conhecê-la pessoalmente um dia. Quem sabe? Mas neste dia 08 de março que tanto questiono, quis contar esse pedacinho de história real para vocês, ainda que tão resumidamente, ainda que sem a dramatização merecida, pois o amor desta mulher pelo seu marido me tocou.

A “ELLA”, meu carinho e minha admiração.

05
Mar
09

Reflexão

Por que não excomungam padrastos que COMEM crianças?

Para mim, eles matam pior. Matam deixando vivo.

04
Mar
09

Novas regras ortográficas

O PRESENTE TEXTO É CRÍTICO E NÃO TEM A INTENÇÃO DE TRAZER AS REGRAS ORTOGRÁFICAS. HÁ SITES ONDE AS DÚVIDAS PODEM SER ESCLARECIDAS. (a autora, em 27/08/2009)

Pura filosofia cretina.

Hoje acordei com este pensamento: se você é professor de português e está preocupado com o novo acordo ortográfico, converse com um professor de direito constitucional (57 emendas em 20 anos, fora as de revisão), um juiz ou um advogado tributarista. Verá que seu problema não é dos maiores. Até porque ex marido, ex-marido ou exmarido, é tudo a mesma merda.

Concorda, Louise?

01
Mar
09

A fé não costuma faiá, mas faiô.

De repente as coisas tomam um rumo bizarro, e é como se você fosse transportado por alguns momentos, a um outro mundo. Foi assim no último sábado.

Após uma agradável tarde de sol, seguimos a uma pizza e mais tarde, um barzinho, anexo a uma pousada, num local muito esnobe aconchegante da cidade. Eu e dois amigos de longa data, cuja intimidade beira a falta de educação. Ele, o rei da mise en scène, ela, a senhora da ironia cômica, e eu, bem, eu estava ali com eles. Escolhemos a mesa, o prosecco, e rapidamente veio o dono (?) do lugar, educadamente, mas com uma leve adição química, talvez, e se aboletou ao quarto lugar da mesa, sem ser exatamente convidado. Queria saber de nós, de onde éramos, como tinhamos descoberto o local, essas coisas. Falou de suas expectativas sobre o lugar, da pousada, e perguntou se conhecíamos as instalações. Meu amigo, novidade, já conhecia, história quentíssima. Nós duas, não. E assim o dono se dispôs a mostrar a pousada, se quiséssemos. Imediatamente, a senhora da ironia cômica respondeu: claro, afinal estamos aqui para uma suruba! Obviamente, ela brincava.

Pausa. Respirem. Eu respirei. Quem tem amigos assim, tem que estar preparado para tudo. Mas eu não estava. Não para aquilo. Nem suruba nem brincadeiras do naipe. Graças às paredes vermelhas do local, minhas bochechas não foram percebidas.

E o cidadão se empolgou. E aí que ele deveria era ter ficado sem graça, mas não, o cidadão acreditou! E mais, no fundo, eu acho mesmo que ele queria era ser convidado! Tentamos contornar a situação, ela pediu desculpas, olha, eu tô só brincando, e até nosso amigo que gosta pouco de se exibir, não deu muita idéia para a idéia. Mas o cidadão teve fé. E insistiu para mostrar os quartos. Insistiu de uma insistência cristã.

Ai meu pai, vamos lá. Mudos. Calados.

Abriu o primeiro, e graças a tudo, o único quarto, cama king size, lareira, hidromassagem, blá blá blá chalé na serra, lindo, não? Claaaro que era. Perfeito para um suíngue. Não moço, é perfeito pra lua de mel. Ele ainda acreditava. Ui!

Saímos do quarto sem uma palavra, elogiamos a piscina pra mudar de assunto, voltamos à mesa e terminamos o prosecco. Ele ainda tentou uma aproximação, coitado. E ao irmos embora, ainda insistiu em nos abraçar, cheio de intimidade.

Quando eu penso que mais nada no mundo me impressiona, um fim de noite assim me acontece!

Depois fiquei pensando, que pra ser malvada estou sozinha, se eu tivesse dinheiro para rasgar, alugava o quarto e levava meus amigos pra dentro, só pra ter o prazer de não convidar o cara-de-pau!