La Spezia, 1944. Ouviu que seu marido desertara na África, voltara à Itália e se encontrava num campo de prisioneiros próximo. Mas ele sabia que não ficaria muito tempo ali – os prisioneiros seriam levados para a Alemanha e o que se imagina é que o destino não seria dos mais generosos. Passou a visitá-lo toda semana, levava sempre um agrado, o que era possível naquela época difícil. Certa vez, um pedido: traga o menino, preciso vê-lo. Não sei por quanto tempo ainda fico aqui, nem o que será daqui para frente.
No dia em que ela levou o menino, ele já havia partido.
Enlouquecida, ela voltou à casa dos pais, deixou o menino e foi atrás dele. Como quase não havia dinheiro em circulação, seu pai lhe deu um brilhante para que fizesse uso quando precisasse. Partiu então, a pé, em direção ao norte, parando aqui e ali, perguntando sobre o grupo de prisioneiros, os pés em carne viva, passando por todos os perigos que uma mulher sozinha em tempos de guerra pode passar, até chegar numa barreira alemã, onde um oficial a interrogou: para onde vais? Estou a procura do meu marido, respondeu. E o oficial, debochando, disse: essas putas italianas sempre atrás dos seus homens. Aquilo a machucara muito mais do que os dias e dias que vagava a pé rumo ao norte da Itália. Não teve outra reação na hora senão a de voar com os dentes no pescoço do oficial alemão. Foi preciso a força de dois homens para apartá-los e, após uma pancada que abriu-lhe o supercílio, desfaleceu. Naquele momento, foi presa num campo para mulheres.
Mas havia por ali, juntamente com os oficiais alemães, alguns oficiais italianos. Um deles, certo dia, perguntou-lhe o nome. Ela respondeu-lhe sobrenome e nome, e ele ficou surpreso de saber que estava diante da filha de um cantor lírico que admirava. Coisa de italianos. O oficial então deu um jeito de tirá-la dali, e ela regressou.
Rumo à Austria, o trem que transportava os prisioneiros, dentre eles seu marido, fora atingido por um bombardeio, ainda na Itália , e ele um dos únicos que conseguira sair com vida. Fugiu para uma fazenda, conseguiu algumas roupas e partiu, entre caminhadas, caronas e trens, de volta para casa.
De volta a casa, ela foi advertida pelo pai a sair de La Spezia com o filho, pois a cidade era frequentemente bombardeada. Foi viver então no litoral, uma cidadezinha minúscula, chamada Monterosso al Mare, com seu filho e seu cão, Ruffo. E o esperava todos os dias, que em épocas de guerra, só o que resta é esperança.
Uns dias depois, enquanto lavava roupas num local púbico, Ruffo a encarava, resmungando. O barulho de um apito de trem ao longe, e Ruffo latindo cada vez mais alto, a fez virar o rosto para o trem que chegava. Ao ver que seu marido estava a bordo, segurou as saias e correu rumo à estação para encontrá-lo, num misto de paixão e desespero.
Quem me contou a história me disse que ela chegou antes do trem!
Tanto já ouvi falar dela, mas esta história, talvez a mais bela de todas, só fui saber na última semana. Entre tulipas de chopp e muito calor, o assunto era o amor, a entrega, o desapego. Na verdade, falávamos de como nos acomodamos na nossa vida fácil de internet, ar condicionado, seriados americanos, fim de semana na serra e férias na praia, e achamos que o amor é algo que milagrosamente vai chegar e se encaixar à rotina pré-existente. Tudo errado. O amor não se encaixa. Ele ocupa o lugar maior e o resto é que se adapta.
- Você faria o mesmo, Maria, ele me disse, tenho certeza.
- É que para enxergar o que interessa, temos que nos livrar do inútil, eu respondi, e disso, todo mundo tem medo.
Ela ainda é viva, aos seus 90 anos, lá na Itália, e eu só a conheço por fotos e histórias. Não sei se terei a oportunidade de conhecê-la pessoalmente um dia. Quem sabe? Mas neste dia 08 de março que tanto questiono, quis contar esse pedacinho de história real para vocês, ainda que tão resumidamente, ainda que sem a dramatização merecida, pois o amor desta mulher pelo seu marido me tocou.
A “ELLA”, meu carinho e minha admiração.