Arquivo para Abril, 2009

28
Abr
09

A gripe do porquinho e minha visão de espectadora do mundo

Do alto do seu olimpo, erguendo a sobrancelha direita, minha PhDeusa favorita tira os olhos da TV, os volta para mim e diz: não dou uma semana pra chegar aqui.

Bem, já chegou até na Nova Zelândia, não dá mais pra discordar da mulher. O fato é que depois do vaticínio nós voltamos a atenção para uma propaganda de um salão famosérrimo que começa com W, e continuamos a falar sobre cortes e tons de cabelos e tals…

[se alguém que trabalha lá chegar a este humilde blog, mereço um presente do salão que começa com W, afinal, quase todo mundo sabe do que se trata]

Continuando, hoje de manhã… MEDO. Na aula de costura (pronto, contei – tô fazendo aula de costura) o assunto não era outro: a mulherada toda falando que já temos 12 casos no Brasil.  O que fiz? Calei a minha boca. Eu já tenho um montão de motivos pro povo me olhar esquisito na aula, se abrisse a boca pra falar de ciência então…

Aí, na hora do almoço aquela companhia detestável do Jornal Hoje – que zona estão fazendo na cabeça das pessoas. Chego a afirmar categoricamente que o problema do mundo é falta de comunicação.

Baseada em coisas miscelanamente noticiadas pelo Bom dia Brasil, Jornal Hoje e Globo on line, o que está dando pra perceber é o seguinte:

1) Ou o governo não está nem aí mesmo pro assunto, ou se finge de blasé pra não criar pânico. Não entendo.

2) Há perigo real para saúde e vidas? Não sei. Isso quem tem que dizer são os cientistas.

3) É uma gripe. Apenas uma gripe. Qualquer um supera, a gente sabe. Pensando assim micro, é mole. O problema é pensar macro. “É apenas mais um vírus” (ou uma mutação, no caso) – ao meu ver, é um problemão. É mais uma doença pra cuidar, pra se preocupar, pro SUS ter mais gastos, embargo econômico à carne do porquinho, queda na bolsa, blá blá blá… pensa que não?

4) Apesar de não existir razão para pânico, gripe se espalha relativamente fácil. E aí sim, a população não tá nem um pouco preparada para epidemia. Se o governo agir, vai agir tarde… aí tem gente que não acredita no governo (por razões óbvias)…

Enfim, volto a repetir que o problema do mundo é falta de comunicação.

A propósito, até agora, NÃO HÁ NENHUM CASO CONFIRMADO NO BRASIL.

25
Abr
09

Da janela lateral do quarto de dormir

Abro a janela e acordo olhando para o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Privilégio viver tão perto de um lugar assim. Uma trilha de 3km, em subida, com bastante sombra e terreno que intercala degraus em pedras e terra batida, bem tranquila pra quem tem um joelho mais ou menos, te leva, em uma hora e meia de caminhada a esta cachoeira:

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… onde a água bem gelada te espera para lavar a alma…

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… pelo caminho, muitas supresas…

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… e mais outras (o que será que elas faziam ali, todas juntas, me pergunto até agora)…

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… e bromélias…

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E a cidade vista de outro ângulo (eu moro ali atrás daquele curvinha em vermelho, e de onde moro não vejo a Maria Comprida):

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Garanto que faz muito bem.

22
Abr
09

manhã de 20 de abril

Eu também guardei a minha imagem: foi o momento em que, com o sol já brincando na nossa pele por entre as frestas da janela, você me descobriu um pedaço, deitou sobre o meu quadril e abraçou as minhas pernas. É impossível dizer aqui o que havia ali. Tudo muito simples e ao mesmo tempo grande demais. Era só eu e você.

E era eu.

17
Abr
09

Num fevereiro qualquer…

“I got to know, got to know, got to know now…”

Sentei-me ali, ao seu lado, no sofá em frente à janela, para contemplar a chuva que caía. Ele me puxou em direção ao seu colo, e eu me deitei, sem nenhuma reação. Uma mão se entrelaçava com a minha e a outra com meu cabelo. E imóveis permanecíamos. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Nada mais era necessário.

Findo o espetáculo, ele se levantou, me beijou a testa e se foi. E a certeza de que o amor simplesmente é, ficou.

“…. I’m willing and able
so I throw my cards on your table”

13
Abr
09

“é ter com quem nos mata, lealdade”

Eu precisava muito saber de uma coisa, professora, o que é carta de sentença? Não, não é a desse tipo, mas assim, em geral, o que é? Sei. É de processo criminal. Porque eu estou sabendo que a carta de sentença saiu lá no Rio e tem que ser enviada pra cá pra ele poder ser solto. Sim, ele já foi julgado, está cumprindo pena. É que ele já cumpriu prisão o suficiente, tem tempo pra sair, por isso eu precisava muito saber o que é isso. Tenho, tenho advogado sim, ele disse que vai lá amanhã, mas é que eu tô num desespero. É sim, é meu noivo. Eu não sabia de nada, professora, nem desconfiava. Só fiquei sabendo quando ele foi preso, foi tudo tão rápido. A gente tava de casamento marcado e aí acontece isso tudo. Mas não fala nada pra ninguém não, professora, por favor, ninguém daqui sabe disso, eu morro de vergonha. É, uma tia que foi desembargadora falou a mesma coisa, que eu tenho que pressionar esse advogado. Não, eu não tenho muito contato com ela, ela também não tá nem aí, não ajuda, também não peço. Meu mal foi já ter entregado ao advogado tanto dinheiro. Já foram dez mil reais, professora, o dinheiro que tinha guardado pra começar a construir a minha casa. Agora quero que ele seja solto o mais rápido possível pra esse casamento sair logo. Ah, agora o casamento sai, de qualquer jeito.

09
Abr
09

Twitter

Estive pensando que o quadro da bailarina, por direito, deve ser meu. Concordam?

06
Abr
09

Babel

Caríssimo professor,

venho lhe escrever, desta vez, não para uma consulta, como das tantas outras. É para te contar que vivo uma saga parecida com a daquela menina que era filha das estrelas, personagem do seu texto lindo e de tantas realidades por este Brasil afora.

A saga da minha personagem é em busca de um nome, só que esta busca não é feita na rua 10.406, e sim numa imensa torre, em que as pessoas de um andar não entendem o que as pessoas de outro andar dizem. Assim, ela segue se sentindo prisioneira deste lugar e por vezes desanima e sente vontade de se jogar de lá.

Cada uma das pessoas que mora lá possui um carimbo e ganha a vida carimbando documentos dos que vão em busca de seus nomes, documentos, bens e outras coisas. Mas cada carimbo é diferente e, no caso dela que precisa de vários carimbos, o resultado fica dependendo de várias pessoas.

Primeiro ela conheceu um rapaz muito gentil, que é quem vai carimbar por último, mas antes dele, vários outros precisarão carimbar outros papéis. Antes disso, infelizmente, este rapaz nada pode fazer. E o problema aconteceu logo com o mais mau humorado deles, um sujeito baixinho e cinza, que respira mal e não sorri. Ele fica dizendo que para carimbar, precisa de um carimbo de outro andar, só que no outro andar eles dizem que o que o homenzinho quer, não existe, eles não fazem, não entendem.

E por isso minha amiga fica subindo e descendo, de um lado para outro e não sabe mais o que fazer. E é muito triste e desesperador não podermos resolver tudo num andar só, já que não há mais nada que ela possa buscar em outro andar. E o que me desanima, como sua amiga e profissional, é que tudo aquilo que o senhor me ensinou com seu sotaque naquelas tardes de quinta feira parece não ser de conhecimento destas pessoas.

Não sabemos mais o que fazer. Agora ela está cansada e parou para procurar outro caminho sem tantos carimbos. Teremos um tempo para pensar no que fazer e encontrar outra solução que há de existir.

Se eu pudesse ir para Maringá no próximo encontro, eu iria e levaria a história dela pra contar. Mas antes estarei aí na sua terra, e quem sabe não nos encontramos para um café e uma boa conversa? Talvez você possa levar a história para mim.

Um forte abraço da sempre aluna,

Maria.

01
Abr
09

Curta metragem VI

Ela saía apressada e atrasada quando ouviu uma voz chamar seu nome. Virou-se sem que desse tempo de pensar quem seria o dono daquela voz e ele estava ali, quase encostando em seu corpo.

Sorriu abertamente, oi, e deu-lhe um abraço cordial. Sentiu o leve perfume que usava e se segurou para não afagar-lhe os cabelos. O que se seguiu foi uma breve troca de palavras, coisas sobre os cotidianos. E olhando para o fundo dos olhos azuis dele, onde perdia o rumo todas as vezes, preciso mesmo ir.

Ele segurou em sua mão e, numa voz quase inaudível, é só até o fim do ano. Então você será minha.

Ela não respondeu. Atravessando a rua, depois do fim do ano talvez não tenha mais graça.