conteúdo suprimido.
Arquivo para Junho, 2009
curta metragem VII
A mulher invisível
Tenho certeza de que no dia em que você for atrás dela vai ser igualzinho a quando eu dei, já adulta, para o carinha por quem fui apaixonada quando eu era adolescente: nada demais.
É a idéia, é sempre ela que nos atormenta.
Quanto a mim, não se preocupe, querido. Eu me interno o fim de semana inteiro numa casa de ópio. Quando você voltar, eu estarei bem e aqui. Pode confiar.
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Poste inspirado no filme homônimo. Engraçado, mas fraquinho. Não merece, necessariamente, um poste.
… e literatura só é literatura devido ao passo em falso do ser humano. É por isso que eu sigo desviando do romance açucarado e da auto-ajuda para me enveredar pelos caminhos do lado B da alma. A literatura nos permite. Por isso, vou contar para vocês um pouco sobre MiniContos Perversos, o Livro, de Gustavo Martins (claro, se eu faço propaganda de tudo que é livro que eu leio, por que não faria das pratas da casa?).
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Tudo começou no dia em que eu caí no MiniContos Perversos, o Blog. O gustavão jura que veio primeiro aqui no Blog da Maria. Eu, sinceramente, não me lembro. Só sei que foi fascínio à primeira leitura, e, prova disso, é que assim que pude, li o blog todo desde o começo, seguindo recomendação do próprio autor e, imediatamente, enviei um e-mail pedindo a ele para que eu pudesse publicar parte de um poema seu aqui. Foi a primeira vez que publiquei no blog texto de outra pessoa.
Os MiniContos não carregam apenas histórias fantásticas, mas também a forma peculiar de escrita do Gustavo. São histórias em linha reta, onde todo sentimento é exposto sem pena, sem pudor, de maneira, por vezes, quase assustadora. É a forma que eu gosto: a objetividade carregada de entrelinhas densas, que faz viajar a mente de quem lê.
Esta semana, os MiniContos Perversos & outras licenciosidades tomaram corpo. Capa amarela e preta, 119 páginas, ilustrações, impecável. Me emocionou ter o meu exemplar na mão (circunstâncias que não cabem nesta “resenha”, mas o meu é muito, muito especial). Assim que o avião decolou eu o tirei de dentro da bolsa e dei mais uma folheada. O casalzinho que viajava ao meu lado cravou os olhos. Li dois MiniContos e deixei o livro fechado em cima da mesinha para que eles olhassem bem.
Permitam-se, leitores, viajar nas histórias perversas. Na literatura, tudo é possível.
Caratuva
O amanhecer gelado de 13 de junho em Curitiba foi de preparativos para a subida do Caratuva. Eu não esperava mesmo o que viria pela frente, quando, uma semana antes, ele me ligou dizendo “Maria, traga roupa para escalada pois vamos fazer uma trilha, tranquilinha, tipo a que fizemos aí em Petrópolis, só um pouco mais longa”. Eu beirei um ataque. Nem uma trilha menor me animaria naquele momento. Eu estava muito mal, com uma tosse pós gripe, sinusite, e o frio parecendo deixar tudo pior. Mas resolvi dar um crédito, confiando que a previsão do tempo mandasse chuva e o evento fosse, literalmente, por água abaixo, procurei um médico e, mandando ver no antibiótico, coloquei as roupas para escalada na mala.
Véspera sem chuva, amanhecer sem chuva, e eu já gostando da idéia, seguimos à montanha. Café na padaria, mochilas, máquinas fotográficas, agasalhos, apitos, lanternas. Partimos rumo ao Caratuva.

Não, não era uma trilha simples como a do Véu da Noiva. Após uma hora de subida puxada em terreno bem agradável, entramos no meio da mata. Eu olhava para cima e tudo o que via era uma escada de pedras e raízes de árvores. Conseguem imaginar? Tentem. Não chovia, mas a montanha envolta em neblina não deixava evaporar a umidade do local. As árvores molhadas “choviam” em cima da getne. Água, suor e lama. Lama, muita lama. Esforço e cansaço. Eu a única mulher e três homens acostumados a este tipo de aventura, estava um bocado assustada, mas fazia de tudo para não pensar nisso. Não, desistir não era opção. Nem pensar que não ia conseguir. Nem reclamar. Bem, só algumas reclamações pequenas, quase sarcásticas, para que eu risse de mim mesma. Tentava me distrair com a beleza das bromélias e cogumelos que encontrava pelo caminho. E quando o perrengue maior chega ao fim, você nem acredita.

De repente, a mata dá um tempo e a vegetação muda radicalmente. Vegetação de topo de montanha é uma das coisas mais lindas, parecem jardins de brinquedo. A dali em especial, é formada pelas caratuvas, uma espécie diferente, com cerca de um metro de altura, e outros arbustos pequenos. Lindíssimo. Eu só lamento muito o tempo não ter aberto nem um pouquinho. Ficou tudo muito fechado a caminhada toda, e só na volta eu tive idéia da altitude em que estava. Subi o último lance rumo ao topo bem devagar, descansando e ao mesmo tempo curtindo.

Lá em cima, o frio corta. Na subida, você não sente pois mexe todo o corpo e está sempre aquecido. Mas chegando no topo, mudei a roupa e fiquei por ali apenas o tempo de comer alguma coisa, preencher o livro (eu não sabia disso: há um tubo fechado no alto da montanha, com um caderno e caneta para a galera que sobe anotar sobre quem subiu, tempo de subida, data, etc) e tirar algumas fotos.

Fui a primeira a descer para o corpo não esfriar. Devagar e fotografando. Eu sabia que a descida não iria ser fácil: o esforço é quase o mesmo da subida e você tem que pensar em cada movimento para não despencar ou se machucar. No final a minha cabeça já não funcionava muito bem, nem os joelhos, nem as pernas e, pisando em falso num dos trechos sem a menor dificuldade, levei um tombo! Não sei quanto tempo levou a descida (deixo pros homens os detalhes técnicos) mas calculo mais ou menos o mesmo tempo da subida.
De volta à fazenda de onde partimos para a trilha, tirei os tenis e mergulhei os pés na água gelada de um lago. Ajuda, num primeiro momento, se você teve alguma lesão que não percebeu. Hoje, de volta à casa, os pés são a única parte do corpo que não doem.
Escrevendo aqui, vou ao Google e descubro que o Caratuva é a segunda montanha mais alta do sul do Brasil. Não sei se é mesmo, eu não me importo muito com isso. Para mim, basta saber que, mesmo sendo difícil, eu cheguei lá em cima. E nunca vou me esquecer dela.
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Esse poste vai pra Marlus, Torrone e Gustavo, com meu agradecimento pela companhia, pela paciência e pelo incentivo.
Vera Maravilha
Eu só comi a Vera Maravilha uma vez. Ela era estupenda, trabalhava como secretária numa agência de carros. Um dia peguei o furgão do Kraus, todo equipado, um verdadeiro motel, só para comer a Vera Maravilha. Era uma época difícil. Minha mulher que nunca ligara muito pras minhas saídas andava marcando em cima e era quase impossível escapar para uma aventurazinha.
Deixei tudo combinado com a Vera, uma amiga ia levá-la de carro até o posto Esso da Visconde, para eu encontrá-la. O Kraus iria encontrar comigo no fim do expediente, com um salvo conduto qualquer. Plano simples e perfeito.
Levei a Vera para o mirante da curva do camelo, que na época não se falava em assalto, essas coisas. E quando vi aquele monumento loiro sem a blusa, achei que estivesse no paraíso. No meio do assunto, vi um farol se aproximando mais do que deveria. Era a minha mulher. Chegou na janela do furgão, olhou só para mim e disse: “Eu só queria ter certeza”. Entrou no carro e voltou pra casa.
A noite para mim terminou ali. Mas eu sabia que não ia ter discussão. Levei a Vera embora, fui pra casa, pus o pijama e me deitei ao lado dela. Não nos falamos por um mês. Um dia, na cama, esbarrei meu pé no dela e a coisa foi, aos poucos, voltando ao normal.
É Zero caloria
Baia não engorda. Não satura. Não tem colesterol. Não cansa.
Em Habeas Corpus ele é muito mais Bob Dylan que o Zé Ramalho e a Mallu Magalhães juntos. Cada sílaba possui um timbre próprio, anasalado, carioca e nordestino ao mesmo tempo.
Tendo um Gabriel Moura pra cruzar, Baia cabeceia bem! Se eu fosse o Raul, cantaria suas composições.
Um bom samba-do-crioulo-doido é sempre bem-vindo. Porém Baia lança histórias interessantíssimas com nexo, começo, meio e fim. Até nos oferece o sabor da interpretação.
Em “Ótima”, ele é o Rogê com sotaque de Pedro Luís. Sambinha quase politicamente incorreto que brinca com proparoxítonas. Sem pressa de acabar.
Com tango dentro xote, palavras não usuais, jongos, malemolência recifence. Livra-se dos livros e desafia a lâmina afiada.
Ótimo!!!!
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Este poste é do Rodrigo, que um dia eu convidei para vir aqui falar de música e que agora perdeu a senha de “contribuidor”. Mariamélia, publica lá pra mim. É claro, o que esse raio não pede sorrindo que eu não faço reclamando? Bem, tá aí pra vocês, poste sobre o Marcelo Baia (adoro!) diretamente copiado do Por que a gente é assim?
Só pra constar, que o moço bem gosta de confete, vai uma fotita do show que ele fez com sua banda Serra Soul, com os maravilhosos Rodney (batera), Paulinho (guitarra), Roberto D’Ávila (baixo), Lelei (sax), Kiko (gaita) e Monique (linda, loira, e voz maravilhosa).

E só pra lembrar, há duas semanas foi minha estréia no Café Bossa Nova, mas só hoje publiquei por lá texto inédito. Passem para conferir.
as primeiras horas
O telefone tocou três vezes esta manhã antes das 9 horas. Eu ainda estava na cama e logo se instalou o pânico. Depois do acidente da minha mãe, telefonemas antes das 9 horas me aangustiam. Não era nada, apenas alguém que iria colocar um hidrômetro numa casa que estamos vendendo.
10 horas meu pai ligou. Com seu tom de voz apavorante, me perguntou se eu já sabia do ocorrido. Eu não sabia. Que ocorrido? Desapareceu um avião da Air France. Vamos para a França daqui a um mês. Na gaveta que meu pai pediu para que eu abrisse para pegar um cartão e passar o número para ele, estão nossos passaportes todos juntos, ao lado dos comprovantes de passagens.
Em 2006 fui ao casamento de um amigo em Porto Alegre. Coisa de um mês antes, tinha ocorrido o acidente da Gol. Eu e meus amigos embarcamos num avião da Gol. Eu estava preocupada mesmo era se iria sentir frio com meu vestido verde decotado nas costas. Mas senti que os amigos que me acompanhavam não estavam muito à vontade não.
Naquele acidente na Bahia a uns dias atrás, morreu a filha de um vizinho nosso com quem não temos muito contato. Não a conhecíamos. Minha mãe sempre diz que desastres aéreos e suicídios nunca são únicos. Quando você fica sabendo de um, logo vem outro.
Não sei porque estou escrevendo este poste sem sentido. Meu avião não vai cair, nem quando eu for para a França, nem na viagem da semana que vem. Tenho 99,9999% de consciência disso. Em genética, isso costuma ser considerado certeza. Hoje no twitter eu tentei dizer que se pudesse escolher uma forma de morrer, um desastre aéreo rumo à Paris não seria má idéia.
Também não vou ter medo de voar. Nunca tive. Meu medo mesmo, continua sendo, e continuará por muito tempo, eu acho, os telefonemas nas primeiras horas da manhã.