Esfregava as mãos vigorosamente sobre a calça jeans numa tentativa inútil de amenizar o frio úmido daquela varanda do bar. Falava elétrica, mulher de idéias. Segurava o cigarro do maço que seria abandonado quase cheio sobre a mesa no final da noite, mas a cerveja era bebida lentamente. Fazia de tudo para esconder o nervosismo do tempo que se esgotava desde que recebeu uma ligação do banco de sêmen. Dois dias era o que tinha para decidir engravidar, manter congelado o sêmen do marido morto por mais um ano, ou descartá-lo.
Não fumava mas não se importava com o cigarro da amiga. Gostava mesmo era do chopp dose dupla das terças feiras. O cachorro enroscava-se aos seus pés, entediado com o programa noturno. Era a mais alegre dali, piadista, irônica. Naquela noite, era disfarce. O bichinho olhando para ela com as pálpebras caídas a fazia lembrar que dali a dois dias encontraria o ex marido, que viria buscá-lo.
Nem gostava tanto assim de beber. Preferia a convivência, as luzes da noite. Ora falava muito, ora nada falava. Olhava para as unhas, curtas maltratadas e sentia-se satisfeita por ter passado uma semana tão ocupada. Em cabeça ocupada não há espaço para idéias más. Só que seu coração batia acelerado, desta vez de tristeza. Eram apenas dois dias e iria encontrá-lo. Dizer que sabia a verdade? Não sabia o que fazer.
Voz baixa, mãos grandes. Um chá gelado, por favor. Era a mais nova da mesa. Ainda pensava se valeria a pena lutar pela renovação de seu contrato ou não: era o preço por uma experiência, mas não lhe enchia os olhos. Queria ir além. Mal sabia que dois dias depois uma vida estaria dentro dela e a sua própria nunca mais seria a mesma.
Para ela, nada gelado. Nada com álcool. O pastel daqui é bom? Sentia muito frio. Se vestia com o bom e o melhor, sempre o mesmo perfume, o cabelo curto era moderno. Tinha um bom emprego e no geral estava feliz. Bem, isso se não fosse o senhorio pedir-lhe o apartamento que acabara de reformar. Faltavam dois dias para sair e ainda não tinha arranjado outro.
Bebia como toda mulher do interior de Minas. Mas só bebia quando o marido vinha buscá-la, pois tinha total e completo senso de responsabilidade em relação a beber e dirigir. Era uma noite dessas. Sempre deslumbrante em sua beleza singela. Mas encimando o sorriso, um olhar quase desesperado. Em dois dias iria rever a família, e junto, as cobranças por um casamento de 12 anos sem filhos.
Era atenta e mal mostrava os dentes. Porém simpática. Rápida, limpa, inteligente. Com alguns até desenvolvia uma conversa mais amigável. Naquele dia pôde parar e observar aquela mesa de mulheres falando alto, muito alto, rindo. Alguma confraternização? Não se deu ao luxo de especular mais. O cliente da mesa ao lado já a chamava. Dispensou-lhe a atenção de sempre. Dois dias e pediria demissão pois, finalmente, conseguira montar o seu salão de beleza.
