Arquivo para a categoria 'Curta Metragem'

21
Out
09

curta metragem VIII

“Abre bem. Isso. Pode ficar tranquila. Pronto, acabou”.

Ele desligou a luz azul e se aproximou com um frasco e um pedaço de algodão. “Feche os olhos que eu vou limpar seu rosto.”  Ele começou a passar o algodão molhado lentamente por suas pálpebras, suas têmporas, removendo resquícios do colírio de contraste. Ela sentia sua respiração bem próxima ao seu rosto, e aquelas mãos tão grandes e tão leves e com um cheiro tão bom, e a penumbra do consultório…

“Pronto. Agora está tudo bem, mas espere mais uns dois dias para voltar a usar a lente de contato. Qualquer problema você sabe que é só ligar.”

Ela saiu do consultório atordoada, tonta, excitada, nada disso… impossível descrever. A rua das seis da tarde era uma miscelânea de imagens turvas. Parou. Respirou fundo. Fechou os olhos. Ah, o cheiro daquelas mãos…

28
Jun
09

curta metragem VII

conteúdo suprimido.

01
Abr
09

Curta metragem VI

Ela saía apressada e atrasada quando ouviu uma voz chamar seu nome. Virou-se sem que desse tempo de pensar quem seria o dono daquela voz e ele estava ali, quase encostando em seu corpo.

Sorriu abertamente, oi, e deu-lhe um abraço cordial. Sentiu o leve perfume que usava e se segurou para não afagar-lhe os cabelos. O que se seguiu foi uma breve troca de palavras, coisas sobre os cotidianos. E olhando para o fundo dos olhos azuis dele, onde perdia o rumo todas as vezes, preciso mesmo ir.

Ele segurou em sua mão e, numa voz quase inaudível, é só até o fim do ano. Então você será minha.

Ela não respondeu. Atravessando a rua, depois do fim do ano talvez não tenha mais graça.

04
Dez
08

Curta metragem V

… e depois permaneceram por um tempo ali, largados, semi-nus, semi-vestidos, que na intimidade condizente com a relação que tinham não havia lugar para corpos entrelaçados. Ele passeava com os dedos na linha de pele que ficava à mostra entre a camiseta e seu sexo vestido. Forçando mais para baixo o elástico, sorriu e disse a ela: “você também não é muito adepta de depilações radicais”. Ela não conteve a risada. Ele continuou: “eu gosto”.

.

* Seria o curta inspirado em Frida & Diego? Frida & Trótski? Não, nas relações de Frida havia paixão e lugar para corpos entrelaçados… talvez inspirado apenas nos pelos de Frida!

27
Out
08

Curta metragem IV

Na primeira vez que a viu, se deslumbrara com aquela boca. E foi só aquela.

Ela era de uma beleza modesta, magra, corpo bem feito, sem maiores predicados. Figura sem muitas cores. Mas quem mandava mesmo ali era a boca: quando falava, então, hipnotizava. Era um convite. E, às vezes, uma ofensa. Algo realmente difícil de se desviar os olhos.

Com a chegada da primavera, um dia a boca veio acompanhada de um decote. Nada demais, a boca continuava imperando. O decote só tornava o convite mais belo, com sua moldura florida.

Mais tarde, em casa, nada a fazia esquecer da imagem que vira. Foi uma tormenta escapar das investidas do namorado com desculpas sem sentido.

27
Mai
08

Curta metragem III

A sala estava cheia de gente quando ele chegou, cumprimentando a todos por entre os dentes. E se desviando das pessoas ele acabou parando ali, na frente dela, a menos de um palmo de distância.

Por uma fração de segundo ela pôde sentir seu cheiro, ouvir sua respiração. Mas desta vez não se intimidou. Olhou em seus olhos, abriu um sorriso e lhe disse: “Olá!”

06
Mai
08

Curta metragem II

Hoje ele esperou que todos saíssem para dizer a ela: você tem pés lindos.

Ela agradeceu, de cabeça baixa, querendo esconder o nervosismo.

Ela sabe que nenhum homem elogia os pés de uma mulher despretensiosamente.

28
Abr
08

Curta metragem

Ela reparou nele logo no primeiro dia. Já no primeiro dia ela deu de cara com ele. Já não bastasse o tudo mais que faz o primeiro dia ser o primeiro dia, e que, de certa maneira era também uma primeira vez, teve ele, ali, completamente diferente de todos os outros que por ali passavam. Ela desconcertou, mas ficou na dela. Afinal, a troca de palavras não foi nada muito além de um ‘boa noite’.

Depois mais um bom tempo de ‘boa noite’, e umas ou outras conversas eventuais, onde ele perdia o olhar, e ela não sabia bem se ele prestava atenção ou não. Coisas que a deixavam intrigada, mais ainda quando ela não conseguia respondê-lo com um percentual satisfatório de certeza. Debates filosóficos…

Hoje tudo foi diferente. As impressões não divagaram, mas foram incisivas sobre sua pessoa, num elogio sincero e, ao mesmo tempo, tímido. Estavam sozinhos. Ela se virou de costas e sentiu que desta vez ele a olhava diferente – os olhos não se perdiam mais.

Ela se despediu com o ‘boa noite’ de praxe, mas precisou voltar pois esquecera um material. Sempre acontece isso, mas desta vez detestou ter que voltar e ter de vê-lo novamente. Sabia que ele ainda estaria sozinho na sala. Entrou de cabeça baixa como que espanando uma poeira da roupa. Pegou o material e saiu sem repetir o ‘boa noite’. Ele observara cada passo dela.

Agora ela não sabe como será daqui para frente. Mas sabe como é problema quando toda a inteligência se concentra num só olhar.