Arquivo para a categoria 'Direitos fundamentais e outras histórias'

24
Jul
09

metro de paris, 23/07, 9h30

metro parisColher de chá: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1793, Art. 35: Quando o governo viola dos direitos do povo, a insurreição é, pelo povo ou por cada parte do povo, o mais sagrado dos direitos e o mais indispensável dos deveres.

06
Abr
09

Babel

Caríssimo professor,

venho lhe escrever, desta vez, não para uma consulta, como das tantas outras. É para te contar que vivo uma saga parecida com a daquela menina que era filha das estrelas, personagem do seu texto lindo e de tantas realidades por este Brasil afora.

A saga da minha personagem é em busca de um nome, só que esta busca não é feita na rua 10.406, e sim numa imensa torre, em que as pessoas de um andar não entendem o que as pessoas de outro andar dizem. Assim, ela segue se sentindo prisioneira deste lugar e por vezes desanima e sente vontade de se jogar de lá.

Cada uma das pessoas que mora lá possui um carimbo e ganha a vida carimbando documentos dos que vão em busca de seus nomes, documentos, bens e outras coisas. Mas cada carimbo é diferente e, no caso dela que precisa de vários carimbos, o resultado fica dependendo de várias pessoas.

Primeiro ela conheceu um rapaz muito gentil, que é quem vai carimbar por último, mas antes dele, vários outros precisarão carimbar outros papéis. Antes disso, infelizmente, este rapaz nada pode fazer. E o problema aconteceu logo com o mais mau humorado deles, um sujeito baixinho e cinza, que respira mal e não sorri. Ele fica dizendo que para carimbar, precisa de um carimbo de outro andar, só que no outro andar eles dizem que o que o homenzinho quer, não existe, eles não fazem, não entendem.

E por isso minha amiga fica subindo e descendo, de um lado para outro e não sabe mais o que fazer. E é muito triste e desesperador não podermos resolver tudo num andar só, já que não há mais nada que ela possa buscar em outro andar. E o que me desanima, como sua amiga e profissional, é que tudo aquilo que o senhor me ensinou com seu sotaque naquelas tardes de quinta feira parece não ser de conhecimento destas pessoas.

Não sabemos mais o que fazer. Agora ela está cansada e parou para procurar outro caminho sem tantos carimbos. Teremos um tempo para pensar no que fazer e encontrar outra solução que há de existir.

Se eu pudesse ir para Maringá no próximo encontro, eu iria e levaria a história dela pra contar. Mas antes estarei aí na sua terra, e quem sabe não nos encontramos para um café e uma boa conversa? Talvez você possa levar a história para mim.

Um forte abraço da sempre aluna,

Maria.

16
Mar
09

Alguma coisa

Pelo menos o Vaticano abriu a boca. Pelo menos isso. Lado a lado o texto do L’Osservatore Romano e a tradução (péssima) do Google, porque my italian, trouble (sim, isso é piada interna), me fizeram crer de que a igreja católica, em suas mentes mais apuradas filosoficamente falando, não consideram a questão tão preto no branco como anunciou o bispo excomungador. Isso é bom. Não é o suficiente, mas é bom. Digo que não o suficiente porque discussões filosóficas são lindas, mas na hora da prática todo mundo tira o seu da reta.

A todo tempo aparecem dilemas morais na nossa frente e o desta menina foi apenas mais um. Mas alguma coisa há que se fazer. Dilemas morais não servem apenas para inspirar de discussões estéreis. Dilemas morais causam dor, destroem vidas, existem. São fatos. Dou um ponto pra igreja, mas o placar dela andava 12 a zero comigo, então, ainda espero melhora.

Este, caso em especial, mostra muito mais do que uma menina de trinta e poucos quilos grávida de gêmeos. Eu, por inúmeros motivos, não falo sobre aborto. Não, eu nunca abortei, nem sequer fiquei grávida alguma vez, não há nenhuma questão pessoal nisto. A verdade é que me sinto incapaz – emocionalmente, filosoficamente, juridicamente e até fisicamente – de falar sobre o assunto, e pra dar opinião de merda, prefiro calar a boca.

O fato, no entanto, me fez refletir sobre as coisas que sei um pouquinho, que vão além da questão individual da menina, nas quais permito meter minha colherinha de café : corrobora a minha tese de que vivemos num país onde não há liberdade, não há escolha, simplesmente porque há de se ter um mínimo material para que se tenha liberdade, e todo mundo sabe que muita gente não tem. Consequentemente, não temos democracia, ou, se temos, é pra poucos. Endossa a miséria à qual estão expostas nossas crianças, ainda que políticos venham à TV dizer que o índice de analfabetismo cai, e que todas vão à escola. Balela.

Não há quem as apóie, não há quem apóie suas mães. E ainda por cima a cultura da “mulher casada” ainda é mais forte do que se imagina e sim, caro leitor, isso acontece nas melhores e nas piores famílias – mulheres que mantém seus homens a todo custo, ainda que sejam violentadas suas próprias filhas ou elas próprias. Por quantas vezes em atendimento popular ouvi de uma mulher, com lágrimas nos olhos: “sim doutora, mas foi só uma vez”? Não foi, eu sei que não.

Mundo hipócrita esse em que vivo.

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Agradeço aqui os selos enviados pela Mirian. Não vou trazê-los (Mirian, desculpe-me, vou quebrar a brincadeira) mas quem quiser ver, clique lá no Caldeirão, e aproveite também as histórias da Bruxa!

05
Mar
09

Reflexão

Por que não excomungam padrastos que COMEM crianças?

Para mim, eles matam pior. Matam deixando vivo.

04
Mar
09

Novas regras ortográficas

O PRESENTE TEXTO É CRÍTICO E NÃO TEM A INTENÇÃO DE TRAZER AS REGRAS ORTOGRÁFICAS. HÁ SITES ONDE AS DÚVIDAS PODEM SER ESCLARECIDAS. (a autora, em 27/08/2009)

Pura filosofia cretina.

Hoje acordei com este pensamento: se você é professor de português e está preocupado com o novo acordo ortográfico, converse com um professor de direito constitucional (57 emendas em 20 anos, fora as de revisão), um juiz ou um advogado tributarista. Verá que seu problema não é dos maiores. Até porque ex marido, ex-marido ou exmarido, é tudo a mesma merda.

Concorda, Louise?

09
Jan
09

A imprensa irresponsável

Hoje pela manhã uma amiga me respondeu a um e-mail em que eu contava um determinado fato curioso ocorrido comigo e as palavras que ela usou para comparar a situação são velhas conhecidas de vocês: é igual a notícia no jornal: tragédia e escândalo sai grandão na primeira página, coisas boas, sai numa notinha bem pequenininha. As palavras dela cairam como uma luva para o fato que eu tinha relatado no e-mail. E, de certa forma, foram um presságio… e encontro uma boa historinha para começar o período que vem na faculdade de comunicação!

Acabo de ler no jornal O Globo (online) a notícia de que o Conselho Regional de Medicina e o Ministério Público, ambos do Estado São Paulo, investigam denúncias contra o médico Roger Abdelmassih, profissional especializado em fertilização, com mais de 40 anos de profissão, por suposta prática de abuso sexual contra pacientes. Na notícia, consta que foram cerca de 8 pacientes que comunicaram terem sofrido abuso.

Agora, meus questionamentos:

1) Ainda que o jornal tenha escrito “suposta” prática de abuso, o que fica evidente é claro que é o “abuso” e não o “suposta”.

2) Que necessidade há do país inteiro saber disso? Uma pessoa com 40 anos de profissão merece algum crédito, não? Existe realmente, por parte do jornal, necessidade de informar, neste caso?

3) Aonde esta imprensa sensacionalista vai parar? A posição do jornal, no caso, ao meu ver, é sensacionalista e completamente desnecessária. Estão confundindo ausência de sigilo com “possibilidade de publicação a qualquer preço”.

Torço para que, ao final, se o médico for considerado inocente nesta história, ele ganhe um bom de um trocado processando o jornal. E que saia uma nota de retratação bem grande e espalhafatosa, do jeito que foi a ofensa.

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Não se espantem com estas postagens seguidas que quebram completamente o ritmo do blog. São as férias que me deixam mais disponível nos momentos em que fujo do sol ou da chuva. Mas em breve estarei viajando e, creio eu, fazendo coisa bem melhor do que escrever!

24
Nov
08

saldo positivo

Tenho que começar a crer mais nestas coisas de marketing pessoal e tals… foi só eu escrever um ‘poste’ dizendo que eu não tinha muita coisa interessante pra dizer que as estatísticas baixaram consideravelmente. Outra coisa que me fez pensar no assunto foi ler lá numa das paredes da esplanada que temos um Ministério do Desenvolvimento e do Combate à Fome. Achei meio negativo. Precisar de um Ministério para combater a fome é assumir uma incompetência tamanha, do governo e do povo. Enfim…

O saldo do fim de semana foi muuuuito positivo. Alguns pontos fortes:

1) Ver Brasília verde (pq só me lembrava dela em épocas de seca). Estava tudo lindo.

2) Olhos extremamente atentos a mim no congresso na hora da minha apresentação. E, sem modéstia, mandei MUITO bem.

3) Encontrar com um dos professores mais queridos da minha vida, pessoa linda e cheia dE sotaquE, que não via há um tempinho, ser reconhecida (professores nem sempre se lembram dos alunos), ganhar um beijo e um abraço.

4) Ser muito bem recebida em duas casas, da minha família de sangue e de uma família do coração. Se sentir querido NUNCA é demais (bom pra lembrar de sempre retribuir este carinho a todas as pessoas).

5) Fazer turismo na chuva, rindo da própria desgraça (!), tirando mil fotos, pagando mil micos (não os micos normais de turistas, mas outros, que a gente sempre inventa).brasilia-2111-091

6) Me emocionar mais com tudo do Niemeyer que eu já conhecia e que eu ainda não conhecia (bom pra lembrar sempre que, como ele diz, “é tudo muito simples”).

7) Comida mexicana, comida nordestina, “sertanejo universitário” (é… ponto forte apenas no sentido de experiência antropológica), pub com cervejas e rock’n'roll ao vivo, pão de queijo (mesmo, feitos pra mim) e, é claro, cosmopolitans.

8.) Duas mensagens que chegaram ao meu celular, assim, do nada. Tá bom, essa não tem nada a ver com Brasília, mas eu estava lá, desligada da minha rotina, e… então… é sempre bom, muito bom.

06
Nov
08

Será que entendi bem?

Foi na terça-feira, creio eu, que, zapeando na TV tarde da noite, assisti a um trecho da entrevista do Pedro Cardoso no programa Conexão Roberto D’Ávila. Não sei se todos estão sabendo da polêmica que este ator levantou, então, é mais ou menos o seguinte: ele resolveu abrir o verbo contra a pornografia na televisão, estendendo a pornografia para muito além dos limites que a minha vã filosofia imaginava, indo desde cenas insinuantes de iminência de relação sexual nas novelas da Globo a desfiles de lingerie, shortinhos, rebolados, e outras coisas que desconheço por quase não assistir a programas de TV. Pelo que eu entendi, nem as ‘bailarinas’ do Faustão escapam. A banheira do Gugu, se é que ainda existe, estaria com visto permanente para o quinto dos infernos.

Até aí, eu até entendo. O cara não gosta, acha feio (eu também acho muita coisa hor-ro-ro-sa), e ponto. O pior é a argumentação usada para fundamentar seu ponto de vista: de que a classe artística é que sofre com isso. Nos seguintes termos, prestenção: que as ‘atrizes’ são exploradas pelos diretores, que seriam conexões entre a obra artística e o empresariado, não tendo voz ativa, portanto para dizer um ‘não, não faço, porque não acho correto’, quando a nudez ou a insinuação dela não tiver lugar na obra. Teve a infelicidade de comparar este processo a uma montadora de veículos: o funcionário da montadora não tem o que fazer se o dono fornece a ele material de baixa qualidade para que ele produza os veículos.

Aí é que eu acho que o Pedro se enrolou. Essa historinha que ele contou não cola, né? Por que ele não fala a verdade e diz realmente o que pensa sobre a baixaria na TV? Tem horas que esse discurso da ‘exploração da imagem feminina’, da ‘visão da mulher como objeto’, não cola. Não cola mesmo. Somado à teoria da exploração da força de trabalho então, é de morrer. Se a moda pega, qualquer dia teremos a reforma trabalhista da classe artística, limitando a autonomia da vontade nos contratos, para proteger as pobres coitadas atrizes que trabalham arduamente por seu pão de cada dia, nada podendo fazer para mudar a situação. Algo estranho, não?

29
Set
08

Poste sem título

A onda avassaladora de inspiração que rendeu um poeminha de pé quebrado (de onde mesmo que tirei isso?) se foi e agora está tudo uma calmaria só. Bem, calmaria na inspiração, porque na “transpiração” (dizia o Tio Patinhas que na vida é 1% de inspiração e 99% de transpiração), o bicho está pegando, o cérebro está fervendo e só não aplaco um mau-humor total porque não é que dei sorte de ter ouvido várias musiquinhas legais no showzinho cover de sábado? E de mais a mais, não sou do tipo que dá trela pra mau-humor, porque tenho mais o que fazer do que encher os outros com os meus problemas (se bem que ontem uma pobre alma ouviu, ou melhor, leu!).

Não, isso aqui não virou um blog diarinho, então, para não perder a viagem, aproveito para fazer algo útil, divulgar a campanha do Edu, que escreve o blog Só os corpos se entendem…. O selo da campanha segue abaixo e dispensa maiores comentários.

11
Jul
08

Bafo ardente

Opiniões pipocam para todos os lados a respeito da chamada “Lei seca”, então vou pipocar a minha por aqui também. A começar que não entendo uma coisa: como uma lei dessa passou. Num país onde se conhece a força da indústria da cerveja, onde esse povo estava que não conseguiu lobby suficiente para embarreirar a lei, eu não sei. Mas a lei passou, está aí pra todo mundo e só Deus sabe no que isto vai dar.

Por enquanto, a imprensa está noticiando uma queda significativa no número de acidentes de trânsito e de registros de entrada em hospitais de vítimas destes acidentes. Mas não está dando muito para confiar na imprensa ultimamente, principalmente depois que ela deixou de lado a função de informar e se embrenhou em fazer o papel de polícia e ditar a verdade que constrói. Deixa pra lá, isso é outra discussão. Mas só por aí poderíamos dizer que esta lei está funcionando, está dando em alguma coisa, alguma coisa boa. Não é? Mais ou menos…

O problema é que a lei é extremamente arbitrária no que tange a direitos fundamentais, aqueles lá da Constituição, aqueles que meus queridos tendem a enxergar apenas como uma decoreba para passar de semestre e não se tocam de que eles têm influência em todo direito e mais, no dia a dia de cada um. No meu, no seu, no de todos. Explico: a testagem em que a lei se baseia para punir o motorista que está dirigindo sob o efeito de álcool é feita pelo etilômetro, vulgo bafômetro. No entanto, tal testagem não pode ser obrigatória pois uma pessoa não pode ser coagida a produzir prova contra si mesmo. E várias pessoas me perguntam: mas onde na Constituição está dito isto? Então, não está dito assim literalmente, mas todo direito é formulado com base em interpretações, e, neste caso, uma bem simples, conjugando o princípio do estado de inocência, a ampla defesa e o direito de permanecer calado. Então, ok. Se ninguém é obrigado a assoprar pra conferir o bafo, ótimo. Me recuso e bye, bye, seu guarda!

Mas o pior é um parágrafo incluído pela nova lei: de que a multa e a suspensão de dirigir serão aplicadas caso a pessoa se recuse a fazer o teste. Isso deveria ser aplicado em conjugação com um outro parágrafo (também novo, que vem antes daquele) que diz que deve haver sinais evidentes de embriaguês, percebidos pela autoridade. Traduzindo: estamos na mão da polícia, LITERALMENTE, que também só Deus sabe que intenções possui. Aí a polícia enxerga bêbado em quem quiser. Se o cara quiser te ferrar, vai multar. Se quiser receber algum, vai multar. Se quiser mostrar serviço, vai multar, ainda que você tenha bebido chá light a noite toda e se recuse a dar a baforada. Ou seja: você está sujeito a multa caso exerça seu direito CONSTITUCIONAL de não produzir provas contra você mesmo. Bizarro? Total. Depois desta, dá vontade de morar na Itália e virar restafári.

Continuando, como não sou boba nem nada, sempre digo, e creio absurdamente nisto, todo país tem a lei que merece, os governantes que merece, etc, etc, etc. Essa aberração jurídica surgiu porque o povinho abusou. Eu abusei, tu abusaste, ele abusou, nós abusamos. Se fôssemos civilizados como em outros países por aí, não haveria brecha para uma lei ABSURDA, INCONSTITUCIONAL, REPRESSORA, TIRANA, como esta. Ou seja, é o nosso comportamento ESTÚPIDO que nos faz ficar a mercê de governantes que só querem privar a nossa liberdade. Esta lei é mais uma que entra pra minha teoria da conspiração do pacote anti-democrático, e veio com força total porque não conseguimos respeitar a anterior, que tinha um índice de tolerância bem maior. Todo mundo continuou enchendo a cara e aprontando todas por aí.

Não é a restrição da bebida em si que faz com que a lei seja ruim, é a forma com que isto é feito: restringindo direitos fundamentais, e as consequências desastrosas que isto pode gerar numa democracia. Isto sim é um problemão. Uma brecha desta e qualquer dia viramos uma ditadura.