Arquivo para a categoria 'Idéias da Maria'

13
Ago
09

Anamnese e picanha na pedra

Médica nova. Primeira impressão péssima. Não gostei da mulher, tanto que levei os exames que ela pediu para outra ver. No meio da anamnese, a pergunta:

- Fuma?

-Não.

- Já fumou?

- Já. Uns 10 anos.

- Há quanto tempo parou?

- Três anos.

- Fumava muito?

- Socialmente, só quando saía.

- Não entendo como vocês (?) fumam – com ar de reprovação.

Não me segurei. Vindo de uma médica, achei esse tipo de pergunta idiota. O vá tomar na tarraqueta quase se jogou da minha boca. Eu, que já estava quase levantando por conta da antipatia automática e indo embora, me contive, respirei fundo, olhei em seus olhos e respondi:

- Fumam porque são viciadas. Eu era viciada em cigarro, ainda que apenas das 18 horas de sexta às 18 de domingo. Cigarro fede, tem cheiro e gosto ruim, é socialmente reprovado, faz mal para a saúde, envelhece e ainda afasta os homens. Se não fosse quimicamente viciante, eu não teria fumado tanto tempo.

Prontamente ela perguntou, afobada, mudando de assunto:

- Já passou por alguma cirurgia?

O ‘causo’ veio a calhar com esta onda de proibição de fumo em local fechado, e dá o gancho para emitir minha reles opinião sobre o assunto – acho exagero. Acho sim que deveria ser proibido em todos os locais públicos, até na rua. E que nos privados ficasse a cargo do dono do local. Por outro lado, eu entendo que a intolerância a um cheiro impregnante é capaz de surtir efeitos legislativos de eficiência duvidosa. Eu por exemplo, ODEIO a tal picanha na pedra mais do que qualquer cigarro, e evito mesmo locais onde este é o carro chefe do cardápio. Gostaria, de verdade, que picanha na pedra fosse servida apenas em locais abertos e sem toldo.

PS pros senhores médicos que porventura visitem esta casa humilde – as opções dos seus pacientes, sejam quais forem, não é problema de vocês. Não é problema de vocês se eu como açúcar, se eu fumo, se eu gosto da gordura da picanha, se eu beijo o cachorro, se eu não lavo as mãos toda hora para evitar a gripe A, B ou C. Portanto, aconselhem, recomendem, auxiliem, ofereçam ajuda, mas, por favor, não julguem. É feio, muito feio.

03
Ago
09

tabu e minha melhor teoria de balcão de bar

O aeroporto de Munique funciona de forma que a pessoa que desembarque não fique mais do que 20 minutos para sair dele. Não ficamos 15. É a busca pela perfeição que nos acompanharia nos próximos 10 dias. Assusta, principalmente porque você é brasileiro, conformado com as falhas e acostumado aos improvisos. A Alemanha não comporta isso. E a herança maldita que um filho da puta que a usou deixou para o mundo já me cutucava – aquela ansiedade que você tem de perguntar, de saber, de tentar adivinhar qual é a verdade, mas tem medo, ou vergonha, de perguntar. Tabu. Encontraria eu explicações para alguma pergunta? Encontraria eu perguntas?

Adlkofen mais parece um condomínio fechado. Asfalto liso, rua limpa, belas casas muito bem cuidadas, jardins floridos, não há muros. Árvores que ninguém se atreve a colher os frutos que pendem para a rua. Tudo lindo e perfeito. De repente, ela ali. Fazendo o quê? Isso já não acabou?

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Eles fingem que não vêem, ou fazem um comentário entre os dentes, envergonhados, até que a placa seja substituída. A culpa que carregam é imensa. E, creio eu que, talvez por esta culpa, a todo tempo se justificam, como se ao mundo pedissem desculpas. Este suco de laranja tem selo verde, o governo incentiva a troca de carros para modelos menos poluentes, nossos supermercados não oferecem sacolas plásticas; veja bem, nossa floresta é recuperada, mas ela não foi desmatada pura e simplesmente, ela foi utilizada (como se a nossa tropical aqui tivesse sido por pura diversão); nosso lixo é milimétricamente separado.  E no meio de uma cidadezinha microscópica (Adlkofen é uma cidadezinha microscópica), há um monumento à tolerância, em memória do 11/09, em que aparecem uma estrela de Davi, o crescente e a cruz cristã.

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Na minha cabeça, a minha melhor teoria de mesa de bar ressurge. De mesa não, de balcão: para mim, a culpa foi algo inventado pelos judeus. Antes do judaísmo há referência à culpa? Eu desconheço. Mas a vida fica bem mais fácil com a culpa, é uma das formas mais eficazes de controle social. Além disso, seus frutos vão da submissão ao lucro – incluindo das indulgências aos honorários de análise. Sim, é uma merda de teoria, mas judeu está longe de ser bicho bobo.

Comecei a pensar: o castigo já estava pronto e nem tinham se dado conta. O legado do filho da puta foi a culpa que os judeus inventaram e os alemães carregarão por muito tempo, justificando e justificando tudo o que fazem, como se ao mundo pedissem desculpas. E as tem para tudo. Bem, para quase tudo. Observem a bucólica paisagem dos fundos da casa em que fiquem em Adlkofen. Um campo de cevada, outro de milho, vizinhos às casas (não há terreno não utilizado na Alemanha), árvores, uma fumacinha ao fundo… fumacinha?

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Não, não é fumacinha. É vapor. Não se vive, nem se consegue ser o lugar mais perfeito do mundo sem energia. Muita energia. O vapor vem de uma usina atômica.

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E o resíduo? É levado para a França. E da França? Bem, aí não sei. Parei por aí. Finalmente uma pergunta para a qual eles não tem respostas. E como energia é algo tão vital para eles e eles são tão cortezes, não merecem ser sacrificados por isto. São um povo que transformou a própria culpa em algo bom, ainda que só perfeito ao primeiro passar de olhos.

Eu aqui sigo com as minhas teorias de balcão de bar, minhas culpas. Eu poderia ser a Alemanha, e transformá-las. Não sei se consigo, mas também não consigo me livrar delas tão facilmente.

22
Jun
09

A mulher invisível

Tenho certeza de que no dia em que você for atrás dela vai ser igualzinho a quando eu dei, já adulta, para o carinha por quem fui apaixonada quando eu era adolescente: nada demais.

É a idéia, é sempre ela que nos atormenta.

Quanto a mim, não se preocupe, querido. Eu me interno o fim de semana inteiro numa casa de ópio. Quando você voltar, eu estarei bem e aqui. Pode confiar.

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Poste inspirado no filme homônimo. Engraçado, mas fraquinho. Não merece, necessariamente, um poste.

01
Jun
09

as primeiras horas

O telefone tocou três vezes esta manhã antes das 9 horas. Eu ainda estava na cama e logo se instalou o pânico. Depois do acidente da minha mãe, telefonemas antes das 9 horas me aangustiam. Não era nada, apenas alguém que iria colocar um hidrômetro numa casa que estamos vendendo.

10 horas meu pai ligou. Com seu tom de voz apavorante, me perguntou se eu já sabia do ocorrido. Eu não sabia. Que ocorrido? Desapareceu um avião da Air France. Vamos para a França daqui a um mês. Na gaveta que meu pai pediu para que eu abrisse para pegar um cartão e passar o número para ele, estão nossos passaportes todos juntos, ao lado dos comprovantes de passagens.

Em 2006 fui ao casamento de um amigo em Porto Alegre. Coisa de um mês antes, tinha ocorrido o acidente da Gol. Eu e meus amigos embarcamos num avião da Gol. Eu estava preocupada mesmo era se iria sentir frio com meu vestido verde decotado nas costas. Mas senti que os amigos que me acompanhavam não estavam muito à vontade não.

Naquele acidente na Bahia a uns dias atrás, morreu a filha de um vizinho nosso com quem não temos muito contato. Não a conhecíamos. Minha mãe sempre diz que desastres aéreos e suicídios nunca são únicos. Quando você fica sabendo de um, logo vem outro.

Não sei porque estou escrevendo este poste sem sentido. Meu avião não vai cair, nem quando eu for para a França, nem na viagem da semana que vem. Tenho 99,9999% de consciência disso. Em genética, isso costuma ser considerado certeza. Hoje no twitter eu tentei dizer que se pudesse escolher uma forma de morrer, um desastre aéreo rumo à Paris não seria má idéia.

Também não vou ter medo de voar. Nunca tive. Meu medo mesmo, continua sendo, e continuará por muito tempo, eu acho, os telefonemas nas primeiras horas da manhã.

14
Mai
09

Uma imagem é uma imagem é uma imagem

Ao responder aos comentários sobre o poste aí de baixo, Coffee shop, o meu tomou vida própria e agora está aqui, onde poderei falar mais e mais e mais.

Uma imagem é apenas uma imagem. É?

A história da foto: temos R., amiga irreverente, pessoa extraordinária, fumante incorrigível. Tanto que seu médico resolveu que seria melhor convencê-la a fumar os cigarros de palha do que abandonar os comuns. Conseguiu. Os de palha enquanto fumados precisam ser reacendidos a todo momento e, com isso, a pessoa se distrai com o cigarro apagado entre os dedos e fuma menos. Antes era quase um maço a cada saída. Hoje, uns três cigarros. R. hoje mora na serra, mas é nascida e criada no posto 9 em Ipanema. Sabem o que é o posto 9, certo? Pra quem não sabe, é lá onde rola a famosa “marcha da maconha”, onde o povo apita pra avisar que a polícia está chegando. Na mesma Ipanema, R. passou a vida numa rede de volei (até hoje não entendo como ela fuma tanto). Juntando a história de R., um cigarro que é enroladinho artesanalmente, uma turma de gente comédia de  e um fotógrafo abusado, o que saiu foi foto de um monte de gente fingindo estar puxando unzinho. E não foi fácil. Só minhas o Bruno W. bateu umas 5 até conseguir a “realidade coffeeshopeana” que esperávamos.

O destino da foto: e finalmente Bruno W. apareceu com as fotos deste dia. Devidamente captadas, vi que o orkut não seria o melhor destino para esta que veio parar aqui no blog porque, como dizia Tiopaulão, gente descalça na área. Então trouxe a foto pra cá, já sabendo que ia provocar alguma reação, mas sendo, a priori, apenas uma foto.

O mais curioso é que para mim esta imagem é apenas uma imagem e, provavelmente, pra muita gente que passou por aqui não é.

E para que fique sepultada qualquer dúvida a respeito do que ingere ou não esta criatura que vos fala, digo a vocês que meu nível de caretice é bem alto, diferente do que no post pode parecer (e por isto mesmo foi postado na categoria Realidade Virtual). Não vou dizer o que faço ou o que não faço, que não é da conta de ninguém, mas só a título de parâmetro, sinto muita culpa quando como qualquer coisa que leve glutamato monossódico e nicotina foi a pior droga que já usei e da qual, por um milagre talvez, me afastei. Com ela tenho que manter sempre os dois olhos bem abertos.

Tenho minhas opiniões a respeito do “legalize qualquer merda”, mas aprendi que não vale a pena expô-las. Sabe por que? Eu levava pedrada de todo lado sem nem ter interesse na causa. Então hoje me reservo no direito de não dar opinião. Consequentemente, a foto não representa nenhuma bandeira.

Concluindo: não, uma imagem jamais será apenas uma imagem.

E agora, em resposta aos comentários:

Mirian, eu também acho.

Altamir, imagino o tanto de interpretação que passou por esta cabeça!

Louise, vc acha mesmo que se eu tivesse ido a Amsterdam eu teria colocado uma foto aqui fumando maconha num coffee shop?

Renata, eu também. Por isso ela veio parar aqui.

Gustavão, como o Sr. já soube de antemão, ainda bem que não gostou. Sua opinião por aqui é deveras importante.

28
Abr
09

A gripe do porquinho e minha visão de espectadora do mundo

Do alto do seu olimpo, erguendo a sobrancelha direita, minha PhDeusa favorita tira os olhos da TV, os volta para mim e diz: não dou uma semana pra chegar aqui.

Bem, já chegou até na Nova Zelândia, não dá mais pra discordar da mulher. O fato é que depois do vaticínio nós voltamos a atenção para uma propaganda de um salão famosérrimo que começa com W, e continuamos a falar sobre cortes e tons de cabelos e tals…

[se alguém que trabalha lá chegar a este humilde blog, mereço um presente do salão que começa com W, afinal, quase todo mundo sabe do que se trata]

Continuando, hoje de manhã… MEDO. Na aula de costura (pronto, contei – tô fazendo aula de costura) o assunto não era outro: a mulherada toda falando que já temos 12 casos no Brasil.  O que fiz? Calei a minha boca. Eu já tenho um montão de motivos pro povo me olhar esquisito na aula, se abrisse a boca pra falar de ciência então…

Aí, na hora do almoço aquela companhia detestável do Jornal Hoje – que zona estão fazendo na cabeça das pessoas. Chego a afirmar categoricamente que o problema do mundo é falta de comunicação.

Baseada em coisas miscelanamente noticiadas pelo Bom dia Brasil, Jornal Hoje e Globo on line, o que está dando pra perceber é o seguinte:

1) Ou o governo não está nem aí mesmo pro assunto, ou se finge de blasé pra não criar pânico. Não entendo.

2) Há perigo real para saúde e vidas? Não sei. Isso quem tem que dizer são os cientistas.

3) É uma gripe. Apenas uma gripe. Qualquer um supera, a gente sabe. Pensando assim micro, é mole. O problema é pensar macro. “É apenas mais um vírus” (ou uma mutação, no caso) – ao meu ver, é um problemão. É mais uma doença pra cuidar, pra se preocupar, pro SUS ter mais gastos, embargo econômico à carne do porquinho, queda na bolsa, blá blá blá… pensa que não?

4) Apesar de não existir razão para pânico, gripe se espalha relativamente fácil. E aí sim, a população não tá nem um pouco preparada para epidemia. Se o governo agir, vai agir tarde… aí tem gente que não acredita no governo (por razões óbvias)…

Enfim, volto a repetir que o problema do mundo é falta de comunicação.

A propósito, até agora, NÃO HÁ NENHUM CASO CONFIRMADO NO BRASIL.

04
Mar
09

Novas regras ortográficas

O PRESENTE TEXTO É CRÍTICO E NÃO TEM A INTENÇÃO DE TRAZER AS REGRAS ORTOGRÁFICAS. HÁ SITES ONDE AS DÚVIDAS PODEM SER ESCLARECIDAS. (a autora, em 27/08/2009)

Pura filosofia cretina.

Hoje acordei com este pensamento: se você é professor de português e está preocupado com o novo acordo ortográfico, converse com um professor de direito constitucional (57 emendas em 20 anos, fora as de revisão), um juiz ou um advogado tributarista. Verá que seu problema não é dos maiores. Até porque ex marido, ex-marido ou exmarido, é tudo a mesma merda.

Concorda, Louise?

24
Jan
09

Ainda bem que os livros não morreram…

Já faz tempo que penso na morte do CD. Isso já quase virou poste uma vez, e voltei a pensar nisto essa semana. Um CD, ou seu antecessor LP, até um tempo atrás era um presente legal. Mais legal ainda porque cabia nele dedicatória, podendo suas músicas compor a trilha sonora de um namoro, um momento, uma amizade.

Lembro bem quando isto bateu na minha cabeça pela primeira vez: como moro na terra da chuva e do frio, com mofo sempre presente, resolvi levar os LP’s antigos para o sítio, e no meio de tudo aquilo encontrei um compacto (lembram, aquele de uma ou duas músicas de cada lado?), da Blitz, com a música “Você não soube me amar”, que meu tio deu à minha tia no início do namoro deles, com dedicatória e tudo. Resolvi devolver o disco, pois era uma recordação que, se fosse minha, gostaria de guardar. E ele achou legal só pela capa, porque, pela música… tão fácil baixar…

O boom causado quando a música “caiu na rede” (sem aqui entrar no mérito da vantagem ou desvantagem disto) fez desaparecer o “CD presente” – a não ser, é claro, os clássicos raridades e as seleções de músicas baixadas, que Rodrigo até fez uma pra mim num aniversário meu, cheia de músicas comédias e outras que cantávamos juntos. E às vezes penso que gostaria sim de ganhar um CD de presente, com dedicatória e tudo. É legal isso. Livros, ainda permitem o artifício, ainda que não sejam tão “sentimentais” quanto uma trilha sonora. DVDs também.

E por falar em DVD, assisti a um filme nesta semana, coisa antiga, coisa muito boa, assunto para o próximo poste, para não misturar tudo por aqui.

19
Dez
08

just do it

Este não é o último poste do ano (eu acho). Este também não é o poste de ano novo. Porque eu não acredito em ano novo, então, eu poderia ter escrito este poste em 12 de setembro que passou, ou 03 de março que vem, sei lá. Muitos não me entendem, mas eu acho ridículo quem acha que na noite do 31/12 pro 01/01 a vida rE-al-mEn-tE pode mudar. Afff… fosse assim, eu celebraria o Rosh Hashaná, que vem lá por meados de setembro e adiantaria a minha vida, oras. Ridículo, ridículo. É claro que vou pra festa, apesar de estar tendo trabalho com o modelito branco (não, não é mandinga, nem superstição, é que branco é minha cor favorita), bebo, danço, pulo e desejo feliz ano novo, porque sou uma pessoa normal e gente boa e que odeia gente chata que não gosta de festa. Mas o que sempre digo pra todo mundo (e acredito nisso) é: esquece que as uvas, as ondas, o branco, a calcinha amarela, rosa, verde, nada farão para diminuir sua bunda gorda.

Mas a contar mais ou menos desta data no ano passado a esta data neste ano, esse tempo por que passei, merece um poste! Nada vocês tem com a minha vida, é fato, mas este poste é pra mim. É pra me relembrar de quanto sou guerreira e de quanto posso progredir, porque, neste ano, mais do que em qualquer outro, eu acreditei em mim.

Neste ano dei fim a duas histórias mal resolvidas. Dei fim a um amor impossível (sim, Amélia também se entrega a vícios de vez em quando). Segurei a onda legal para não me meter novamente em histórias mal resolvidas, e cheguei até aqui com 4 x 0 no meu placar sentimental. Ok, tô me achando por isso. Insuportável eu sou. Mas foi difícil pra burro, chorei absurdos, quase sem coração pra bater, e sobrevivi. Sem engordar.

Também me interessei menos pela vida alheia e confesso que não teve muito esforço para isso não. Foi espontâneo. Poucas fofocas hoje me dão tesão. Gente, isso é tão cansativo e improdutivo, que se um dia vocês chegarem nesse ponto em que cheguei e olharem pra trás, vão ver o quanto é bom não saber que a ex do primo da tia da vizinha traiu o atual marido.

É claro que sair fora da fofoca tem seu lado bom, mas também tem seu lado ruim. No último almoço entre amigos me senti deslocada em 90% das conversas. Só fofoquei muito em Brasília, pois, devido à distância, eram muitas as fofocas pra contar pros amigos de lá. E por falar em amigos, o período não foi tão bom quanto eu gostaria. A labuta em outra cidade deixou a sempre presente Amélia meio fora do circuito. E o povo cobra, viu?

Em compensação, arrumei um trabalho onde ganho pouco mas me divirto horrores. E quero ir pra cama todos os dias pensando que o clima de cordialidade entre meus colegas é verdadeiro (e eu acho que em boa parte é mesmo. E a Amélia é desconfiada pra caramba). Também é um trabalho que me tornou mais sangue frio do que eu já era. E olha que as provocações não são poucas. Mas permanecer no salto tem sido um dos meus esportes favoritos. E isto também tem a ver com a tal da opinião alheia: tô aí sim pro que pensam de mim. Mas só se a opinião alheia tiver real relevância no resultado da minha vida. Senão, um abraço. Vai caçar o que fazer.

Enfim, espero que no tempo adiante eu continue desse jeito pra melhor porque estou bem satisfeita. E é isso. A virada no festão, que será repetida esse ano, se Deus quiser e convites na mão!, não fez absolutamente nada por mim. O que fez a diferença foram os meus sim’s e meus não’s ao longo do caminho.

E claro, a nike não está me pagando nem um centavo, nem eu pagando à nike, mas se for pra ela me pagar (o que acho bem mais coerente), eu aceito em tênis porque pretendo, assim que as chuvas me deixarem em paz, voltar a correr tudo de novo.

30
Nov
08

Do dia em que pus a imagem à prova

Por estes dias a Frida faz um ano. Pensei em republicar o ‘poste’ que escrevi na época, mas republicar é uma idéia que não me agrada muito, não sou mais eu, passou o tempo, sou mutante. Só que a Frida me marcou tanto, e a todo mundo, que volto a escrever sobre ela mais uma vez, uma re-edição do ‘poste’ original, eu diria.

Não me lembro exatamente de onde surgiu a idéia de me fantasiar de Frida Kahlo. Eu sou completamente fascinada por fantasias e festas à fantasia, e não sou do tipo que me aproveita delas para por a sensível libido masculina à prova, até porque nunca precisei disto. Então, minhas fantasias sempre são o resultado de algum devaneio pessoal, combinado com acessórios mil que tenho em casa (um baú deles), criatividade, maquiagem, vontade e muita, mas muita cara dura. Porque melindrosa, enfermeira, anjinha e coelhinha todo mundo ama. Mas uma mulher de bigode… bem…

s30100112Era a festa certa para a Frida aparecer: presença de muitos amigos, vontade de fazer graça, festa pequena e restrita. Mas o resultado… quantos não foram os olhares de espanto para cima de mim, uns com pena da feiúra retratada e alguns mais assanhadinhos pensando estar diante da Salma Hayeck (que interpretou a Frida no cinema), apesar de eu medir uns bons muitos centímetros a mais que ela e que a própria Frida. E o que eu achava que fosse apenas curtição se tornou um verdadeiro maremoto de questionamentos.

O começo da tormenta, dois fatos: eu, bonita, Frida, feia. E daí que eu não estava nem aí em me “enfeiar”? Eu queria mesmo era curtir! Como fiz, com saião, tranças, flores, anéis, bigode e sobrancelhas juntas.

Ainda em casa, uma amiga não queria que eu saísse daquele jeito. Ela olhava para mim com pena, como se olhasse para uma filho deformado no primeiro dia de aula. Ela tinha medo, por mim, da reação das pessoas. Na festa, estranheza, admiração e curiosidade (alguns não sabiam quem tinha sido a Frida). Eu incomodava as pessoas. E o tempo todo aqueles olhares de: ‘como você teve coragem?’ Olhares que me perseguem até hoje, para os quais eu me justifico.

Eu me olho no espelho e gosto (muito) do que vejo. As pessoas que me olham costumam gostar também. Eu me acho bonita com todas as minhas diferenças e imperfeições e não ‘apesar’ delas. Não as lamento. Tem dias em que me acho um absurdo de linda outros acordo ‘torta’. Normal. Mas entendam: o fato de ter me ‘travestido’ de Frida foi visto pelas pessoas como uma negação à beleza que carrego. E assim vi que eu tinha consciência da beleza mas não tinha idéia da dimensão dela na minha imagem projetada ao mundo. Pesa muito. E numa era ditada por imagens, modelos, técnicas, fórmulas, melhorias, excelências, que espaço resta para a nossa verdade? Caramba, era só uma fantasia!brasilia-2111-030-cut

Não me sinto obrigada a ser bonita o tempo todo. Também não sou contra modificações, simples ou radicais: maquiagem, cirurgias, botox, próteses, exercícios, cremes, químicas. Nada disso. Muito pelo contrário. Toda essa tecnologia a favor da auto estima é resultado de muito trabalho e pesquisa de alguém e ajuda muito os que precisam ficar mais confortáveis com a própria aparência. Mas os exageros são perigosos e alguns não compreendem – na busca pelo belo – que podem se perder. Eu me perdi, mas num caminho inverso e com volta. Mergulhei numa feiúra que foi embora quando o rosto foi lavado e os cabelos foram soltos e, quando emergi, sabia mais do que nunca quem eu era.  Me reconheci, como sou, no espelho. E, felizmente, perdi minha verdade por instantes apenas, numa festa à fantasia.

Frida foi uma experiência única. Foi mais que a brincadeira. Serviu não só para que eu continuasse a me assumir bela, mas também para entender que as características físicas são um traço muito, muito importante de nossa personalidade. Foi decisiva para refletir sobre qualquer interevenção definitiva que eu possa vir a fazer para modificar a minha imagem um dia. E também para saber que posso, e devo, usar sempre a minha imagem ao meu favor, ainda que não vire escrava disto. Com ela entendi que, belo ou feio, seja lá o que isto signifique, o importante é não se perder numa imagem que não é a sua.