E neste outro chego ao ponto do ônibus da Bonifácio, do outro lado da cidade, às nove da noite, e uma cega com dificuldades de se locomover desce do 201 tropeçando em cima de mim… o seu ônibus já está vindo? Não. Tem como você me atravessar aqui na Bonifácio e naquela outra rua em frente à padaria? Posso, sem problemas. Você não vai perder seu ônibus não? Não, a esta hora tem vários. Se eu perder um não demora a vir outro.
Não entendo como a Bonifácio não tem um sinal com alarme para os cegos atravessarem. O instituto de cegos é tão badalado que em certos momentos há mais cegos do que não cegos na rua, além de ser uma rua perigosa para travessia até para quem enxerga muito bem. Mas lá fui eu com a cega segurando meu braço, e andando com dificuldade, não sei se sequela de algum acidente ou alguma doença, ou de nascença. Levei-a até a porta do instituto e não voltei para o ponto da Bonifácio. Peguei um taxi para o mercado da avenida.
Já antes do taxista parar, estiquei o braço com uma nota de dez reais, dispensando o troco, e já avistando o louco pedinte. Desci do carro já o encarando então seu filho da puta, e agora? Vai por a culpa em mim pelo que? Acabei de ajudar uma cega a atravessar uma rua… isso vale muito mais do que uma moedinha de cinquenta centavos para você, seu merda. Pergunta pra Jesus. E do teu lado que Deus não está, e Ele não ia achar nada bom você ficar usando o nome dEle em vão para comover as pessoas e fazê-las se sentirem culpadas, seu desgraçado pecador…
E todo mundo do mercado, e do cursinho que tem em cima do mercado, e algumas senhoras saindo da oração na capela do convento de Santa Catarina, e os frequentadores do bar do meio estavam olhando para uma mulher que gritava com um homem maltrapilho que a encarava sem entender muita coisa. Eu tinha passado dos limites. Eu tinha confundido tudo, eu tinha perdido os pesos e as medidas. A mulher era eu, mas eu agora era livre. Eu era livre da culpa que um louco pedinte pusera em mim, era livre da maldição, e, além de tudo, sabia que Jesus Cristo nunca ia me deixar na mão.