Arquivo para a categoria 'Na terra do pão de queijo'

13
Nov
09

que deus lhe dê em dobro – 2

E neste outro chego ao ponto do ônibus da Bonifácio, do outro lado da cidade, às nove da noite, e uma cega com dificuldades de se locomover desce do 201 tropeçando em cima de mim… o seu ônibus já está vindo? Não. Tem como você me atravessar aqui na Bonifácio e naquela outra rua em frente à padaria? Posso, sem problemas. Você não vai perder seu ônibus não? Não, a esta hora tem vários. Se eu perder um não demora a vir outro.

Não entendo como a Bonifácio não tem um sinal com alarme para os cegos atravessarem. O instituto de cegos é tão badalado que em certos momentos há mais cegos do que não cegos na rua, além de ser uma rua perigosa para travessia até para quem enxerga muito bem. Mas lá fui eu com a cega segurando meu braço, e andando com dificuldade, não sei se sequela de algum acidente ou alguma doença, ou de nascença. Levei-a até a porta do instituto e não voltei para o ponto da Bonifácio. Peguei um taxi para o mercado da avenida.

Já antes do taxista parar, estiquei o braço com uma nota de dez reais, dispensando o troco, e já avistando o louco pedinte. Desci do carro já o encarando então seu filho da puta, e agora? Vai por a culpa em mim pelo que? Acabei de ajudar uma cega a atravessar uma rua… isso vale muito mais do que uma moedinha de cinquenta centavos para você, seu merda. Pergunta pra Jesus. E do teu lado que Deus não está, e Ele não ia achar nada bom você ficar usando o nome dEle em vão para comover as pessoas e fazê-las se sentirem culpadas, seu desgraçado pecador…

E todo mundo do mercado, e do cursinho que tem em cima do mercado, e algumas senhoras saindo da oração na capela do convento de Santa Catarina, e os frequentadores do bar do meio estavam olhando para uma mulher que gritava com um homem maltrapilho que a encarava sem entender muita coisa. Eu tinha passado dos limites. Eu tinha confundido tudo, eu tinha perdido os pesos e as medidas. A mulher era eu, mas eu agora era livre. Eu era livre da culpa que um louco pedinte pusera em mim, era livre da maldição, e, além de tudo, sabia que Jesus Cristo nunca ia me deixar na mão.

11
Nov
09

que deus lhe dê em dobro – 1

O caminho pela rua de trás é bem mais curto. Mas quando chove dos terrenos em obra escorre uma água lamacenta que inunda os buracos da rua que fica intransitável. O jeito é subir até a avenida. Mas eu detesto passar por ali, confesso. Isso tudo por causa do pedinte nojento que transita entre o mercado e o ponto de ônibus em frente ao Jesuítas. Todas as vezes ele vem atrás de mim. E eu sempre caio na do desgraçado que sabe fazer a coisa, não chega pedindo dinheiro nem nada, chega pedindo atenção, pede para que você fale com ele, e depois de dois segundos de ladainha, pede o dinheiro. Eu digo que não tenho e o infeliz vomita em mim seu melhor discurso para que eu me sinta culpada. Ele olha nos meus olhos e diz você é ruim, hein, dona. Que pessoa mais ruim que você é. Mas Jesus Cristo está vendo isso tudo, vendo a pessoa ruim que você é, uma pessoa que nega ajuda a um necessitado. Um necessitado que passa fome e que precisa da ajuda dos outros pra viver… você vai ver só quando precisar de Jesus para alguma coisa, ele vai lembrar desse dia, do dia que você negou ajuda a uma pessoa que precisa, e você não vai conseguir nada nesta vida, nunca vai ter prosperidade.

Logo eu que tento ser correta e sei que não é certo dar dinheiro às pessoas nas ruas, vacilo por um instante tamanha a dureza de suas palavras. Sigo pela rua apressada em quanto ele me amaldiçoa e ele não desiste fácil, vai atrás de mim durante um bom trecho. Fico triste e me pergunto será mesmo que sou essa pessoa tão má como ele diz? Será que não mereço ser feliz, que nada irei conseguir nesta vida? Será que por não ter dado dinheiro a um louco pedinte Jesus Cristo vai me abandonar? Sinto uma tristeza como se tudo de bom de mim escorresse pelas pernas junto com a água da chuva e sigo quase correndo para o ponto.

Mas há um dia atrás do outro e não será o louco pedinte que me fará vacilar…

13
Nov
08

Sabedoria etílica (para aqueles que acreditam que “in pinga veritas”)

Outro dia saí de casa pra trabalhar, vinte pras oito da noite, e sentei no banco do ponto do ônibus, que fica em frente a um cruzamento onde uma das ruas é de mão única e, com considerável freqüência, vemos motoristas desavisados (sim, porque não há placas), entrar por ali na contra-mão. Neste dia, logo depois, sentou ao meu lado um senhor, decentemente vestido, mas alcoolicamente fedido. Ficou jogando palavras ao vento como os que padecem do vício fazem. Sim, ele era alcoólatra , tendo, inclusive, afirmado isso: “tenho duas filhas, uma médica e uma fisioterapeuta; e olha que sou alcoólatra”. No instante seguinte, mais um desavisado entra na contramão. Eu dou uma levantada no corpo e levo a mão a cabeça, num susto. Nisto, o senhor exclama: “é isso, é isso que dá! ficar pensando no ontem, dá nisso. sabe, menina, porque os acidentes acontecem? porque as pessoas ficam pensando no ontem. ora, o ontem já passou, não temos que pensar no ontem. temos que colocar a atenção no hoje, que é o que está acontecendo, e no futuro que acontecerá daqui a pouco. quem pensa no ontem não vive, e acaba fazendo besteira.” Tive que agüentar mais umas ou outras divagações daquela figura. Mas, naquele momento, aquelas suas palavras fizeram total sentido para mim.

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OFF POSTE: no meio de uma semana de trabalheira só, eis que cai um livro sobre a cama e se abre na epígrafe (dificilmente um livro cai aberto nas primeiras páginas), e tem um trechinho (eu acho que é um trecho) do poema “Uma pedra é uma pedra”, do Ferreira Gullar, que a adora, então vou deixar aqui pra ela (e pra quem mais quiser). Beijos, bom fim de semana!

“… o homem é uma aflição que repousa

Num corpo que ele de certo modo nega

Pois que este corpo morre e se apaga

E assim o homem tenta

Livrar-se do fim que o atormenta

E se inventa”

09
Set
08

Maldita nostalgia

Um ‘poste’ por aí me fez lembrar do Cine Miragem, que tinha aqui na cidade. Ficava numa praça em frente ao meu colégio, a maior concentração de mendigos do local. Eu morria de curiosidade de entrar ali. Não pelos filmes de quinta e pornôs que passavam, porque eu era muito pequena, uns 4, 5 anos, não atinava para o “conteúdo”. Mas me encucava o fato de que naquele cinema ninguém me levava. Minha mãe dizia pra mim que o cinema era sujo e com pulgas (e era mesmo).

Anos depois, eu já na faculdade, o “recinto” virou um estacionamento. E nunca vou esquecer a primeira vez que parei o carro ali e fiquei um momento observando as paredes, a antiga tela, como se resgatasse uma memória que não tinha. Estacionamentos em locais onde foram cinemas me dão angústia. E cinemas antigos e abandonados me deixam me dão uma certa nostalgia de coisas que não conheci… outro dia fiquei um tempão parada em frente a um cinema antigo aqui na terra do pão-de-queijo, olhando pela porta de vidro, vendo as cadeiras espalhadas pelo que deve ter sido o saguão, cartazes pintados de guache com horários de filmes pornôs espalhados por toda parte. Um retrato de decadência. Quase poético.

Tenho enorme vontade de ir ao Cine Íris, no centro do Rio, que eu acho que ainda funciona, não para as festinhas ‘modernetes’ que rolam de vez em quando. Quero ir para assistir uma porcaria qualquer às duas da tarde. Mas até hoje não arrumei uma companhia louca o suficiente para me acompanhar. Ir sozinha, não rola. Rio de Janeiro, sabe como é…

(OBS: isto foi comentário feito aqui. Trouxe pra cá, melhorei e virou ‘poste’)

16
Jul
08

O trem

Vou contar uma coisa para vocês. Aqui passa um trem. De onde eu venho, trem é uma coisa que existiu há muito tempo atrás e, portanto, nunca fez parte do meu dia-a-dia. Mas aqui tem um trem de minério que quando está cheio precisa de umas três máquinas para puxar os vagões. O trem passa longe de onde eu moro, mas à noite, no silêncio, é possível escutar seu barulho e seu apito, muito, muito longe. Isso faz o trem ser mais assustador do que se eu morasse ao lado da linha. Esse barulho longínqüo me incomoda. Não como todos os outros barulhos que sempre me incomodam, mas sinto um arrepio toda vez que escuto, um sensação estranha. Então eu estava aqui, nesta madrugada, envolta na luz azul do monitor e o trem passou, e eu senti a sensação estranha. Agora eu digo a vocês: eu não gosto do trem.

13
Jun
08

Joãozinho

Depois da noite de ontem não tem como não falar de cabelos burrinhos de novo!

Aproveitando a solteirice no dia dos namorados somada a véspera de feriado na terra do pão de queijo, me muni de excelentes companhias e fui dar uma conferida num show da Vanessa da Mata. Muito bom, muito linda, e delícias de músicas. A moça impressiona, mesmo rodando demais, o que faz a gente confundí-la ou com Clara Nunes, ou com Margareth Menezes. Mas é solta, é alegre e bem humorada, e é um show que a gente dança o tempo todo!

E, aproveitando a deixa do ‘poste’ dos cabelos burrinhos, ouçam a música “Joãozinho”, que é bem bonitinha. Tem a ver com Maria e com cabelos burrinhos. Então, tem tudo a ver estar aqui!

20
Mai
08

Minhas cozinhas

Cozinhar é muito bom. Pra mim é um prazer. Logo eu, que não como muita coisa, mas que aprendi a gostar de muitas outras quando descobri que era o preparo e não o gosto em si que me afastava de certas comidas.

Para cozinhar você tem que ser, em primeiro lugar, destemido, além de ter confiança no que dizem aqueles que vivem da cozinha. Acreditar que o “al dente” faz diferença, o ingrediente mais caro faz diferença, que azeite não é tudo a mesma coisa, que o alho socado é diferente do espremido, do picado e do fatiado, e por aí vai…

Mas se você cozinha na sua casa, por puro prazer, e oferece aquilo que faz pra quem está acostumado com macarronada da avó, arroz de forno da mãe, e feijoada da tia, pode ter certeza que haverá narizes torcidos diante dos seus legumes assados com molho de iogurte. Ok. Isso passa. Mas ou você encontra seus iguais para partilhar da experiência, ou vai cozinhar só pra você mesmo. E vou dizer: cozinhar pra um só é difícil, muito difícil, ainda mais se você é como eu e se preocupa com o desperdício. Verduras em geral acabam ficando de fora. Imagina… um repolho dura um mês!

Outro problema pra quem curte cozinhar são os ingredientes. Isso é moleza pra quem mora no Rio ou em São Paulo. Hoje eu moro numa cidade bem maior que a que eu morava no Estado do Rio mas é uma dificuldade, acreditem, achar abobrinha, pepino japonês, alface americana, manjericão fresco, alecrim. Sálvia, neeeem pensar… e eu que comia isso tudo toda semana, era feliz e não sabia! Logo agora que posso fazer tudo ao meu jeito… pelo menos tem limão, porque também, se não tivesse, eu me mandava daqui e não voltava nunca mais!

E é assim… nada é perfeito. Agora que tenho uma cozinha pra mandar, não consigo mandar bem devido a esse monte de contingências. Mas não é motivo pra desistir, e sim, pra colocar a imaginação pra funcionar. E deixar as receitas maiores pros amigos cobaias!

03
Abr
08

fragmento

Hoje passaram por mim três cidadãos que deixaram um fragmento de conversa fenomenal:

- IPod é aquele trem de pôr no ouvido, né?

- É, isso mesz…

Imagina o trabalhão que essa pessoa deu à mãe quando era pequeno.

27
Mar
08

Nada é totalmente certo, nem totalmente errado…

… não que sair na chuva seja errado, mas uma experiência essa semana serviu para muitas reflexões.

Nesta terra chove todos os dias. É algo realmente irritante, e olha que venho de Petrópolis, onde chove pra burro, mas aqui a chuva é concentrada, desce toda de uma vez no fim da tarde, dura umas duas horas. Pega a galera saindo do trabalho, indo e vindo da faculdade, e me pega, geralmente, indo pro trabalho.

Na terça, como minha aula é mais tarde, aproveitei para sair pra correr justo na hora da “mardita”. Quando pus o pé pra fora, chuva! Voltei, esperei um 5 minutos, pois tava com cara de que não ia vingar. Deu uma trégua, resolvi sair. Quando comecei a dar a volta na cidade universitária, o mundo desabou em cima de mim. E eu continuei, afinal, não tinha muito jeito mesmo, não tinha nem pra onde ir, nem adiantava sair correndo, porque correndo eu já estava. E é melhor ficar molhada correndo do que parada sentindo frio.

Terminei o percurso, voltei pra casa, chuva mandando ver. Alma lavada, sim. Mas o corpo, daquele jeito. Cheguei, tirei a roupa molhada, liguei o chuveiro, poff! O chuveiro queimou! Olha que sorte de ter saído na chuva! Nem senti o banho frio. Se eu tivesse feito doce por uma “simples chuvinha”, ia ter que encarar o banho no sofrimento.

Nada é por acaso…

26
Mar
08

Santa paciência!

O chorinho que saia do sax na hora em que eu temperava o meu pure de baroa estava mais que perfeito. Mas essa mistura de “Cordel do Fogo Encantado” com “Enya” (alguém se lembra dessa coisa estranha???) ninguém me-re-ce!!!