Arquivo para a categoria 'Realidade virtual'

25
Out
09

onde não há querer e onde há

Escorrega sua mão por minha pele branca…
Encontra.
Vem?

Equimose: lesão fechada que resulta no extravasamento de sangue com infiltração hemorrágica nas malhas dos tecidos superficiais e profundos.

[Vejo nesta manhã meu corpo refletido no espelho.]

Tua boca,
Tão quente!
Que gosto!

Sugilações: equimoses de sucção, provocadas pela língua ou pelo vácuo causado pelo agente.

[Observo-me nua e repito esta palavra: sugilações, sugilações...]

Chupa meu seio.
Abusa.
Pede.

Estigmas ungueais: escoriações de configuração semilunar , ou lineares, resultantes da ação das unhas.

[E mesmo com tantas marcas e tanto mais a esconder nos permitimos.]

E eu me entrego
Sente?
Te dou, eu dei, gozei.

Segredo (Aurélio): 1. aquilo que não pode ser revelado, sigilo. 2. Aquilo que se oculta à vista, ao conhecimento; aquilo que não se divulga; sigilo. 3. Assunto, problema, negócio, conhecido apenas de uns poucos. 5. Aquilo que se diz no ouvido de alguém. 6. Confidência, confissão. 7. Aquilo que há de mais recôndito na pessoa humana. 8. Mistério, enigma. 9. Razão misteriosa; causa secreta.

[Não conheça arrependimento pois nada há aproveitado que já não fosse devidamente nosso.]

.

Baby, baby
I know that’s the way
Baby, baby
I know that’s the way

.

E nesse tempo certo que a gente sabe
A gente pensa saber
Fazer as coisas
Lidar com os medos
Olhar pros outros
Fingir razão.

[Não há querer, não há vontade, é simplesmente circunstância e os olhos do mundo não estão aptos à compreensão desnecessária deste que não é assunto, e nada devemos e nada temos senão este inatingível e intangível. E por causa disso eu não devo, eu não ligo, não justifico e não culpo. Eu apenas lido. E tudo o mais permanece pois assim são as coisas que devem permanecer e é assim que tudo deve permanecer, pois assim que é o que queremos. Nisto sim, há querer.]

15
Out
09

ana e a outra

A Ana nunca tinha se deparado com uma situação daquelas.

A atendente do laboratório, onde Ana todos os dias vai levar as lâminas dos pacientes para exame, dispensa a ela uns elogios estranhos, que até poderiam ser normais se fossem amigas próximas. Mas não são amigas. Nem próximas.

A Ana não se constrange porque sabe que, se há algum problema, o problema não é dela. Então agradece, com sorriso cordial.

Por exemplo, ela diz: “Ana, você tá linda com esse cabelo cortado e preso pro lado.” O que, para Ana, é bem diferente de dizer: “Ana, seu cabelo está lindo cortado e preso pro lado”.

Concorda com a Ana?

23
Set
09

@brommelia

No domingo anterior ao meu chá de sumiço twítico, eu encontrei com Carlo, meu amigo italiano. Carlo é psiquiatra e mora em Araras, um recanto quase intocado de Petrópolis, numa casinha linda, isolado do mundo, escolha que fez quando sua mulher, há 4 anos, se foi sem dizer ciao, levada por um ataque cardíaco fulminante. Quando o domingo promete ser agradável, Carlo me convida para passar o dia com ele, o que significa, muita conversa, muito vinho e muita comida, que ele faz questão de preparar para mim.

Carlo me recebeu com seu cumprimento típico: assim que desci do carro, segurou-me pelos braços, fincando os dedos nos meus tríceps e me beijando as bochechas com estalos. Bella… Me levou à varanda, onde me serviu uma taça de um vinho divino (e provavelmente muito caro) e sentou-se ao meu lado para as perguntas de sempre: a vida, a família, o trabalho, aquele sujeito de quem você acha que gosta… é claro que minhas explicações, por mais que Carlo se mostre interessado na minha vida, e algumas vezes em demasia, nunca duram mais de quarenta minutos. Como todo italiano, ele é o centro das atenções e, é fato, eu me encontro com ele muito mais para ouvir do que para ser ouvida, ainda que muito mais para ser bajulada do que para bajular. Carlo e eu temos um equilíbrio incomum, resumido em: ele cozinha, eu como, ele fala, eu escuto, eu viajo, ele contempla.

Carlo começa como eu, pela vida, pelos filhos adolescentes do primeiro casamento que moram com a mãe na Itália, fala sobre medicina, psicoses, psicopatias, drogas novas, drogas antigas, e logo muda o discurso para Dante Alighieri, Michelangelo e óperas, todas as óperas e os personagens das óperas e suas psiques. Eu olho para ele fascinada. Nem sempre acompanho seu raciocínio, às vezes me perco naquilo de tão especial que aquele homem trouxe para minha vida – empatia. Com Carlo, descobri o que significava empatia.

Bella, você fica muito mais bonita com esse cabelo solto e todo enrolado. Mas Carlo, esse cabelo não combina com a minha profissão! Mas como não?

Com a primeira garrafa de vinho quase ao final, ele vem da cozinha com meu antepasto preferido, filetes de abobrinha refogados em alho, um pão meio morno, azeite, um moedor de sal e um de pimenta. Delírio. Derramo o azeite no prato, ponho sal, passo o pedaço de pão e o levo à boca, lambendo o dedo anular. Você come como se estivesse fazendo amor. Você nunca fez amor comigo, Carlo, eu digo de boca cheia. Ah, bambina, como você é má. E caímos na risada.

Mais vinho, e carpaccio. Mais vinho, e a pasta, pesto, pignoli. Ele fala, eu escuto. Eu viajo, ele contempla. Mais vinho. Um abacaxi cor de rosa doce de sobremesa, e eu caio no sono na rede da varanda. Acordo uma hora e meia depois, já escureceu, o sol já se foi nos fazendo lembrar que ainda é inverno. Carlo lê com a sala escura e uma luminária em cima do livro. Você está bem, bella? Sente-se aí que já faço um café para você. Vamos ver um filme? Não querido, já está tarde, viajo cedo amanhã, acho melhor ir para casa. Va bene, mas pelo menos um café. Claro, querido, sem um café eu não chego nem na porta!

Carlo me leva até a cozinha. Prepara dois expressos, e mais dois, que nunca bebemos uma xícara só. Bella, promete que deixa esse cabelo assim, como está? Claro, querido, eu minto. Ele sabe. Carlo sabe de tudo.

Ele se despede de mim da mesma forma que me cumprimentou, mas com menos entusiasmo. Ciao, bello, eu digo.

E eu volto para casa, naquela estradinha escura sinuosa de Araras, pensando em algumas coisas que sei sobre Carlo. Carlo não tem orkut, nem twitter. Só se comunica via internet com os filhos, pelo skipe. Carlo não tem vida virtual, nunca teve (embora eu saiba que ele lê este blog, e acredito mesmo que seja apenas este blog). Seu notebook vive desligado e raramente sai de dentro de seu carro simplesmente porque é esquecido por lá. Carlo só seduz com olho no olho, só tem amigos de longa data, de quem conhece a voz e as manias. Quando está só em casa, lê, vê filmes, recebe os amigos, dorme. Faz nada. Contempla.

Neste dia eu decidi dar sumiço na minha conta do twitter e sua verborragia. Eu não preciso me comunicar tanto. Eu não preciso dar notícia. Eu não sinto a menor necessidade de espalhar meu mau humor, ou minha alegria, ou meu bad hair day, ou desgastar minha inteligência em aforismos  autoafirmativos ou em tentativas humorísticas de 140 caracteres. Eu sinceramente não me sinto na obrigação de dar minha opinião sobre tudo. E menos ainda de ler a opinião alheia sobre tudo.

PS: a conta só foi mantida por um resto de apego ao nome @brommelia, e por alguns interesses específicos, a maioria profissionais.

16
Set
09

anacrônica ansiedade

Esfregava as mãos vigorosamente sobre a calça jeans numa tentativa inútil de amenizar o frio úmido daquela varanda do bar. Falava elétrica, mulher de  idéias. Segurava o cigarro do maço que seria abandonado quase cheio sobre a mesa no final da noite, mas a cerveja era bebida lentamente. Fazia de tudo para esconder o nervosismo do tempo que se esgotava desde que recebeu uma ligação do banco de sêmen. Dois dias era o que tinha para decidir engravidar, manter congelado o sêmen do marido morto por mais um ano, ou descartá-lo.

Não fumava mas não se importava com o cigarro da amiga. Gostava mesmo era do chopp dose dupla das terças feiras. O cachorro enroscava-se aos seus pés, entediado com o programa noturno. Era a mais alegre dali, piadista, irônica. Naquela noite, era disfarce. O bichinho olhando para ela com as pálpebras caídas a fazia lembrar que dali a dois dias  encontraria o ex marido, que viria buscá-lo.

Nem gostava tanto assim de beber. Preferia a convivência, as luzes da noite. Ora falava muito, ora nada falava. Olhava para as unhas, curtas maltratadas e sentia-se satisfeita por ter passado uma semana tão ocupada. Em cabeça ocupada não há espaço para idéias más. Só que seu coração batia acelerado, desta vez de tristeza. Eram apenas dois dias e iria encontrá-lo. Dizer que sabia a verdade? Não sabia o que fazer.

Voz baixa, mãos grandes. Um chá gelado, por favor. Era a mais nova da mesa. Ainda pensava se valeria a pena lutar pela renovação de seu contrato ou não: era o preço por uma experiência, mas não lhe enchia os olhos. Queria ir além. Mal sabia que dois dias depois uma vida estaria dentro dela e a sua própria nunca mais seria a mesma.

Para ela, nada gelado. Nada com álcool. O pastel daqui é bom? Sentia muito frio. Se vestia com o bom e o melhor, sempre o mesmo perfume, o cabelo curto era moderno. Tinha um bom emprego e no geral estava feliz. Bem, isso se não fosse o senhorio pedir-lhe o apartamento que acabara de reformar. Faltavam dois dias para sair e ainda não tinha arranjado outro.

Bebia como toda mulher do interior de Minas. Mas só bebia quando o marido vinha buscá-la, pois tinha total e completo senso de responsabilidade em relação a beber e dirigir. Era uma noite dessas. Sempre deslumbrante em sua beleza singela. Mas encimando o sorriso, um olhar quase desesperado. Em dois dias iria rever a família, e junto, as cobranças por um casamento de 12 anos sem filhos.

Era atenta e mal mostrava os dentes. Porém simpática. Rápida, limpa, inteligente. Com alguns até desenvolvia uma conversa mais amigável. Naquele dia pôde parar e observar aquela mesa de mulheres falando alto, muito alto, rindo. Alguma confraternização? Não se deu ao luxo de especular mais. O cliente da mesa ao lado já a chamava. Dispensou-lhe a atenção de sempre. Dois dias e pediria demissão pois, finalmente, conseguira montar o seu salão de beleza.

06
Set
09

Conjuminando

- O lance é esperar mais um ano, um ano e meio, que eu consigo resolver minha vida, ficar bem,  aí vai ser fácil.

- Me beija.

- E a gente corre muito risco com essas saídas eventuais. Quer saber? O meu pavor de engravidar de você é tão grande, que da última vez que a gente transou, mesmo com toda a precaução, eu mandei pra dentro uma pílula do dia seguinte. Passei mal até. Cheguei mesmo a pensar que estava grávida.

- Você é louca. Quando eu tirei a camisinha, ela estava intacta. Eu conferi. Apertei ela, na luz do banheiro, tava tudo lá. Não entendo o porquê de tanto medo.

- Não, claro que não entende. Não é você que engravida. Vasectomia, esqueceu? E, pra qualquer dúvida, ainda tem o teste de DNA, e aí, fodeu. A gente tem que ser racional pra poder se dar bem nessa.

- Eu acho que você tinha que parar com essas neuras e me dar um pouquinho.

- …

- …

- Pior é que eu fico neste pavor todo, e eu penso: e quando a gente ficar junto e resolver fazer um filho? Tá arriscado a acontecer sabe o quê? A eu não engravidar.

- É… pô, ia ser azar.

- O jeito seria adotar um moleque.

- Sebá.

- Ã?

- Sebastião. A gente colocava o nome nele de Sebastião.

29
Ago
09

o nosso mundo particular

Alguns anos atrás, Maria, posso ir pra sua casa? Pode. Posso fazer churrasco? Pode. Vou levar trance pra você ouvir. OK. Você gosta de trance? Não sei. Posso lavar o carro aí? Pode. Precisa levar mais alguma coisa? Coca cola.

Chegou, arrumou o som, a churrasqueira, a carne. Eu ainda terminava um trabalho dentro de casa, olhei pela janela e o vi ali, menino, as sardas nos ombros, o lagarto, o cabelo loiro de sol queimado, feliz como há muito tempo não o via. Vem pro sol, deixa isso praí. Fui, afundei na piscina até o meio do lábio e continuei olhando pra ele.

Eu amo esse lugar. Eu sei. Obrigado por me deixar vir. De nada. Você sabe… Eu sei…

Alguns anos depois, quase dois meses depois de ter recebido o convite, eu finalmente fui conhecer seu lounge. Fui muito bem recebida por ele e por sua mulher, impecáveis no comando do negócio que assumiram. Noite agradável, vai, vem, pessoas, histórias e finalmente ela e e eu nos encontramos sozinhas por um minuto.

Ele fala muito de você. Ah é? Fala sim, que vocês são amigos de infância. Eu tinha curiosidade para te conhecer, porque ele tem muitas amigas, mas de você ele fala diferente. É porque somos amigos de infância.

Não sei dizer se o que ouvi na sua voz foram ciúmes. Talvez não. Talvez só aquele ciúme da melhor definição de ciúme que já ouvi em toda a minha vida: ciúme é um quarto fechado em que você está do lado de fora. Não importava.

O comentário dela me deu mais certeza de que eu e ele temos mesmo o nosso quarto fechado, com todas as alegrias, histórias, músicas, tristezas, angústias, sabores, erros e acertos, compreendidos num cruzar de olhares. E este quarto fechado tem na porta uma plaquinha: Jardim Cícero Prado.

Outros fragmentos desta história aqui e aqui.

23
Ago
09

…já disseram um é pouco, dois é bom, três é demais…

O Zé? Ah, a última dele foi que estava namorando duas mulheres. Coisa do Zé. Acho que todo homem sonha com essa coisa de ter mais de uma namorada, eu mesmo já tive vontade, confesso, mas daí a levar a empreitada a cabo, cara, é uma operação um tanto complexa. Ter duas namoradas não é a mesma coisa do que ter uma oficial e uma outra de vez em quando. Segundo o que o Zé contou, eram duas namoradas mesmo, as duas frequentando a casa, as rodas de amigos, a família. Só não frequentavam uma a outra, pelo que parece, mas aí também já seria um pouco demais… e eu acho até que demorou a dar confusão. Quando o Zé me contou, eu bem que avisei a ele, meu irmão, uma hora elas vão cobrar a conta, porque é claro que elas sabem, não se passa a perna em diabo. Mas ele estava gostando da brincadeira. E quem não gostaria? Há nesta vida algo mais motivador para um homem do que ser desejado e disputado por duas mulheres? Não mesmo. E o tempo foi passando com namorada A e namorada B cada vez mais integradas com família, amigos, mulheres dos amigos, ex-mulheres dos amigos… até que um dia…  informações atravessadas nos vai-e-véns de conversas femininas fizeram a namorada A querer pular fora do polígono. Houve choro e vela. Dizem as más línguas que até ameaça. A namorada A saiu batendo a porta da casa do Zé jurando nunca mais voltar. Primeiro o Zé sentiu um vazio. Depois, um certo alívio, afinal, ainda tinha uma para garantir. Três dias depois, ligou pra namorada B e a levou pra jantar. Ela estava radiante, já sabendo que a namorada A tinha ido embora repleta de razão, e viu sua oportunidade de se tornar a namorada U de única. Mas o Zé não viu nela a mesma graça. Ela percebeu. Ao deixá-la em casa disse a ela que não dava mais. Passou um mês pensando na namorada A, até que tomou coragem e ligou. Passaram um fim de semana inteiro na cama. Mas para o Zé, faltava algo.  Segunda-feira, quando ela foi embora, ele ligou para a namorada B. Tinham terminado numa boa, quase que com um “até logo”, e o Zé acreditou que não seria difícil retomar do ponto onde terminaram. Mas já era tarde… ela já estava com outro. Sentiu um aperto no peito. Não era bem dor, mas frustração. Certamente a namorada A poderia assumir o posto de namorada U, se ele quisesse. Ah… se fosse isso que ele realmente quisesse. Mas não era. Sua paixão não era por uma ou por outra, nem pelas duas. Era por si mesmo. Era a disputa entre as duas que o mantinha bem, feliz, realizado. É, o Zé continua o mesmo. Cheio de história pra contar. Mas um dia ele toma jeito, ah se toma!

Publicado originalmente no Café Bossa Nova.

Mais um conto com narrador masculino, mais um que fala sobre indecisões masculinas… num tom mais leve, que é bom de vez em quando.

Aliás, esta história é baseada em fatos reais, como a anterior. Os fatos reais, porém, tiveram outro desfecho. Por enquanto, final feliz, felizmente, para meu amado inspirador, que, um dia, bêbado, me contou esse caso pelo msn. Homem como todo homem, mas que eu admiro por tomar decisões, ainda que com todas as suas incertezas e inseguranças. Apostador nato na alegria da vida.

O nome “Zé” eu meio que roubei lá dos MiniContos Perversos. Afinal, não há nome melhor para personagens atrapalhados e românticos incorrigíveis, ainda que não assumidos. Zé pode ser você, você ou você que vem aqui me ler, ou que já se meteu em roubadas parecidas.

18
Ago
09

elegia (para os eternos insatisfeitos com as próprias escolhas)

Amei três mulheres na minha vida.

A primeira foi a Liana, a primeira paixão, o primeiro amor. Ela fazia escola de belas artes, era rica e vivia em crise existencial. A mãe dela me adorava, mas ela própria não aceitava a idéia de ser apaixonada por um pé rapado como eu. Um dia, numa discussão no ateliê dela, peguei uma tela em branco bem grande, um pincel e tinta vermelha, desenhei uma piroca e disse a ela: “é disso; é desse tipo de terapia que você precisa”. Casei com outra para esquecer dela. Nunca consegui.

A segunda foi a Maria José. Ela tinha um pouco mais de um metro e meio de altura, um corpo perfeito e uma alegria dentro de si que nunca vi igual. Topava qualquer loucura em qualquer lugar. Um dia, ela ligou pro meu trabalho e pediu para que eu fosse até a casa dela e que era urgente. Saí, preocupado, deixando tudo para trás. Quando cheguei, ela abriu a porta completamente nua, lambusada de óleo johnson, dos cabelos aos pés. Acho que nunca comi ninguém com tanta vontade como naquele dia. Até hoje dói aqui dentro pensar nela, um certo arrependimento de não ter dado outro rumo para a nossa história. Precisei ir embora do país com mulher e filhos para salvar meu casamento.

A terceira mulher que eu amei foi você.

07
Ago
09

vício

As pessoas enlouquecem calmamente, viciosamente, sem prazer…

Eu sei que de agora em diante só tem um jeito: por hoje não. Eu consigo manter o respeito pela própria condição de pessoa em eterna recuperação até que chega aquela tarde morna, aquele momento insípido, em que você olha para as coisas que te dão prazer e só enxerga o tédio.

Um desejo violento bate sem querer. Pânico, vertigem, obsessão…

Minha entrega ao vício é resultado destes momentos onde o nada acontece – e eu que só sei viver com adrenalina correndo nas veias te procuro para mais uma dose. Depois termino a noite jogada na sarjeta do meu não querer traído, porque no fundo, eu não quero. E, de fato, não preciso.

Mas não tente se matar, pelo menos essa noite não.


05
Jul
09

Senhor do Bonfim da Bahia

- Maldita fitinha – dizia ela passando o indicador por baixo do trapo em que tinha se transformado uma fita do Senhor do Bonfim. Dois pedidos, os que eu esperava que fossem demorar tanto tempo, estes já se realizaram. Agora só falta um, unzinho, logo aquele que eu batalho tanto pra acontecer. Mais de um ano e nada desta fita arrebentar!

- Precisa nem fazer segredo – e ri – teu pedido é pra esquecer dele.

- Merda. E lembrar que pusemos esta porcaria no mesmo dia. Ele me disse que pra ele também só falta um pedido.

- Ah, tá explicado então. Se teu pedido é pra esquecer dele, o dele deve ser pra casar com você!

- E agora, o que eu faço, amiga? Ela me perguntava com uma carinha de quase desespero, olhando pro trapo amarrado no pulso.

- Sei lá. Agora tá meio como aquela história do gato com o pão com manteiga amarrado nas costas: nem cai o pão, nem cai o gato, os dois flutuam, nada acontece. Eu arrancava fora.

- Mas e se eu arranco a fita fora e os dois pedidos que deram certo voltam a dar errado?

- É, melhor garantir esses dois. Faz assim, carrega aquele tesourão da cozinha na bolsa. Quando o vir distraído, zapt, corta a fita dele. Só não pode se arrepender depois.