Nos anos 80 “arranjaram” minha mãe para um emprego (sim, exatamente isso, longa história) onde ela ganhou, por 10 meses, o maior salário da vida dela. Em épocas de vacas magras, cada centavo foi destinado aos alicerces e paredes da nossa casa em construção. As únicas exceções foram cinco batas de bordado de crivo, uma de cada cor, que ela comprou de uma só vez – coisa completamente incompatível com sua personalidade (ela culpa a homeopatia unicista), o carésimo salão de beleza da Barbie (pra mim, no natal) e uma Kombi. Sim, um belo dia ela chegou em casa com uma Kombi. Daquelas antigas, de dois vidros, bicolores, azulão e branco, placa AP 1364.
Seus pais terem uma Kombi durante a sua infância é coisa de sonho. Pode levar o cachorro pra praia? Pode. Pode levar o cachorro pra fazenda? Pode. Pode levar bicicleta? Pode. O salão de beleza da Barbie? Pode. Os primos todos? Pode. O cachorro, a bicicleta, o salão de beleza da Barbie, e os primos todos? Claro que pode!
[nascia aqui a minha obsessão por carros enormes que podem levar tudo]
Ficamos com a Kombi uns dois anos, duas mudanças, inclusive para a casa nova, muitos passeios, muitas viagens com todo mundo junto, até que minha mãe engravidou e eles acharam que barriga e Kombi não combinavam. Então a Kombi foi embora.
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Meu tio irmão do meu pai coleciona carros antigos. Quase 20 anos depois, um dia ele liga aqui pra casa, todo felizão, querendo falar com a minha mãe. Elen, comprei tua Kombi! Fui ver na documentação e reconheci sua assinatura num recibo de troca de motor! Engraçado isso, né? A Kombi tava lá, bem inteirinha ainda, não tanto quanto sua outra Kombi verde e branca, do mesmo modelo, linda, completa, tudo original, xodó, campeã de várias exposições, mas ainda fez história…
Um dia a Kombi verde e branca saiu na capa do caderno Carro e etc., do jornal O Globo e uma griffe famosa entrou em contato com meu tio querendo alugá-la para fazer as fotos de um catálogo de verão em Angra. Obviamente ele não iria alugar a preciosidade que não pode enconstar o pneuzinho na areia. Então mandou a minha Kombi azul, que nas fotos do catálogo, que ainda devo ter em algum lugar, não fez nem um pouco feio. Um tempo depois, ela foi novamente vendida, deixando lembranças boas e uma história boba pra ser contada num blog no dia das crianças.