Ele realmente é muito lindo com aquele olhar de James Dean, dizia a minha mãe sobre o homem mais bonito que eu já namorei.
Rafael foi um presente que o verão de 2000 me entregou em pleno carnaval com um beijo desconcertante na praia da Armação, em Búzios. Seus olhos tinham a cor daquelas águas, algo entre o verde e o azul e o resto todo era perfeito como podem ser os meninos loiros e queimados de sol aos 18 anos.
Quatro abissais anos entre os meus 22 de recém formada e seus 18 de menino inconsequente, além de diversas outras incompatibilidades, não me impediram de me deixar ouvir você é a mulher da minha vida e rir todas as vezes em que ele dizia isso. Mais ainda quando ele dizia à minha mãe: tia ela é a mulher da minha vida. De fato, eu nunca acreditei, pois, de fato, nunca estive apaixonada por ele. Eu só me perdia naqueles olhos e me deixava ser abusada em cada canto, como se estivesse de férias da vida. E ele realmente era um problema: jogador de futebol do time arquiinimigo (e o fato de ser do time arquiinimigo era o menor dos problemas), talento descoberto por um dos olheiros mais famosos do Rio de Janeiro, conheceu as dores e as delícias de uma fama em potencial: dinheiro, mulheres e drogas, ainda que administrasse isso com alguma propriedade.
Seu futuro quase certo era jogar no Gênova, e esta negociação toda se deu na época em que estávamos juntos. Seu empresário, Marco, mesmo tendo inserido o menino neste paradoxo mundo de glamour, sabia que ele era seu melhor produto, e me viu como aliada nesta venda de Rafael para a Itália. Eu, além de sossegar o moleque, topara ir junto quando ele fosse vendido.
O que fez a coisa todo desandar foi a negativa do pai de Rafael em assinar seu contrato – no futebol de juniores existe uma coisa chamada gato (google it pra quem não sabe) e como ele seria vendido como se fosse menor de idade, era necessária sua permissão. O pai achava aquilo tudo um absurdo e queria o filho longe dos gramados. Rafael se desencantou e com o término de seu contrato no Rio, acabou voltando para a chácara dos pais, numa cidade do interior do Estado.
Um dia eu telefonei e ele tinha ido jogar bola com os amigos de infância. Nunca mais retornou e fiquei anos sem saber dele. O orkut me fez localizar Marco em 2005 e ele me contou que Rafael tinha ido naquele mesmo ano para a Rússia. Perdera as melhores oportunidades nos times italianos. Sabe como ele era, aquele menino se perdia por causa de mulher. Não soube aproveitar seu talento. Ficou quatro meses na Rússia, ainda tinha chances de ir para a Inglaterra, ou mesmo pra Itália, mas voltou por conta de uma namorada que dizia ter engravidado. Nem sei se foi verdade. Nunca mais soube dele. E eu também não.
Eu costumo brincar que ele ainda é meu namorado, afinal, nunca terminamos, estamos apenas há uns 9 anos sem nos falar. E por que eu resolvi contar esta história toda aqui? Ah sim, ontem assisti a Giant, ou “Assim caminha a humanidade” (quem são essas pessoas que traduzem os títulos dos filmes, hein?), entendi o que a minha mãe dizia sobre James Dean e seu olhar, e me lembrei dessa passagem da minha vida da qual me lembro como se fosse o filme da vida de outra pessoa. E fui dormir nostálgica dessas coisas boas que acontecem nos verões só para deixar os dias da gente mais coloridos.
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Dois detalhes:
1) Eu não conseguia dar um título a este poste. Escolhi “Ana Júlia” pois foi a “nossa música”.
2) Aos trinta e alguns eu ainda não tinha assistido a nenhum filme com James Dean e achei Giant um puta filme.



