Arquivo para a categoria 'Verdade verdadeira'

04
Out
09

Ana Júlia

Ele realmente é muito lindo com aquele olhar de James Dean, dizia a minha mãe sobre o homem mais bonito que eu já namorei.

Rafael foi um presente que o verão de 2000 me entregou em pleno carnaval com um beijo desconcertante na praia da Armação, em Búzios. Seus olhos tinham a cor daquelas águas, algo entre o verde e o azul e o resto todo era perfeito como podem ser os meninos loiros e queimados de sol aos 18 anos.

Quatro abissais anos entre os meus 22 de recém formada e seus 18 de menino inconsequente, além de diversas outras incompatibilidades, não me impediram de me deixar ouvir você é a mulher da minha vida e rir todas as vezes em que ele dizia isso. Mais ainda quando ele dizia à minha mãe: tia ela é a mulher da minha vida. De fato, eu nunca acreditei, pois, de fato, nunca estive apaixonada por ele. Eu só me perdia naqueles olhos e me deixava ser abusada em cada canto, como se estivesse de férias da vida. E ele realmente era um problema: jogador de futebol do time arquiinimigo (e o fato de ser do time arquiinimigo era o menor dos problemas), talento descoberto por um dos olheiros mais famosos do Rio de Janeiro, conheceu as dores e as delícias de uma fama em potencial: dinheiro, mulheres e drogas,  ainda que administrasse isso com alguma propriedade.

Seu futuro quase certo era  jogar no Gênova, e esta negociação toda se deu na época em que estávamos juntos. Seu empresário, Marco, mesmo tendo inserido o menino neste paradoxo mundo de glamour, sabia que ele era seu melhor produto, e me viu como aliada nesta venda de Rafael para a Itália. Eu, além de sossegar o moleque, topara ir junto quando ele fosse vendido.

O que fez a coisa todo desandar foi a negativa do pai de Rafael em assinar seu contrato – no futebol de juniores existe uma coisa chamada gato (google it pra quem não sabe)  e como ele seria vendido como se fosse menor de idade, era necessária sua permissão. O pai achava aquilo tudo um absurdo e queria o filho longe dos gramados. Rafael se desencantou e com o término de seu contrato no Rio, acabou voltando para a chácara dos pais, numa cidade do interior do Estado.

Um dia eu telefonei e ele tinha ido jogar bola com os amigos de infância. Nunca mais retornou e fiquei anos sem saber dele. O orkut me fez localizar Marco em 2005 e ele me contou que Rafael tinha ido naquele mesmo ano para a Rússia. Perdera as melhores oportunidades nos times italianos. Sabe como ele era, aquele menino se perdia por causa de mulher. Não soube aproveitar seu talento. Ficou quatro meses na Rússia, ainda tinha chances de ir para a Inglaterra, ou mesmo pra Itália, mas voltou por conta de uma namorada que dizia ter engravidado. Nem sei se foi verdade. Nunca mais soube dele. E eu também não.

Eu costumo brincar que ele ainda é meu namorado, afinal, nunca terminamos, estamos apenas há uns 9 anos sem nos falar. E por que eu resolvi contar esta história toda aqui? Ah sim, ontem assisti a Giant, ou “Assim caminha a humanidade” (quem são essas pessoas que traduzem os títulos dos filmes, hein?), entendi o que a minha mãe dizia sobre James Dean e seu olhar, e me lembrei dessa passagem da minha vida da qual me lembro como se fosse o filme da vida de outra pessoa. E fui dormir nostálgica dessas coisas boas que acontecem nos verões só para deixar os dias da gente mais coloridos.

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Dois detalhes:

1) Eu não conseguia dar um título a este poste. Escolhi “Ana Júlia” pois foi a “nossa música”.

2) Aos trinta e alguns eu ainda não tinha assistido a nenhum filme com James Dean e achei Giant um puta filme.

29
Ago
09

o nosso mundo particular

Alguns anos atrás, Maria, posso ir pra sua casa? Pode. Posso fazer churrasco? Pode. Vou levar trance pra você ouvir. OK. Você gosta de trance? Não sei. Posso lavar o carro aí? Pode. Precisa levar mais alguma coisa? Coca cola.

Chegou, arrumou o som, a churrasqueira, a carne. Eu ainda terminava um trabalho dentro de casa, olhei pela janela e o vi ali, menino, as sardas nos ombros, o lagarto, o cabelo loiro de sol queimado, feliz como há muito tempo não o via. Vem pro sol, deixa isso praí. Fui, afundei na piscina até o meio do lábio e continuei olhando pra ele.

Eu amo esse lugar. Eu sei. Obrigado por me deixar vir. De nada. Você sabe… Eu sei…

Alguns anos depois, quase dois meses depois de ter recebido o convite, eu finalmente fui conhecer seu lounge. Fui muito bem recebida por ele e por sua mulher, impecáveis no comando do negócio que assumiram. Noite agradável, vai, vem, pessoas, histórias e finalmente ela e e eu nos encontramos sozinhas por um minuto.

Ele fala muito de você. Ah é? Fala sim, que vocês são amigos de infância. Eu tinha curiosidade para te conhecer, porque ele tem muitas amigas, mas de você ele fala diferente. É porque somos amigos de infância.

Não sei dizer se o que ouvi na sua voz foram ciúmes. Talvez não. Talvez só aquele ciúme da melhor definição de ciúme que já ouvi em toda a minha vida: ciúme é um quarto fechado em que você está do lado de fora. Não importava.

O comentário dela me deu mais certeza de que eu e ele temos mesmo o nosso quarto fechado, com todas as alegrias, histórias, músicas, tristezas, angústias, sabores, erros e acertos, compreendidos num cruzar de olhares. E este quarto fechado tem na porta uma plaquinha: Jardim Cícero Prado.

Outros fragmentos desta história aqui e aqui.

13
Ago
09

Anamnese e picanha na pedra

Médica nova. Primeira impressão péssima. Não gostei da mulher, tanto que levei os exames que ela pediu para outra ver. No meio da anamnese, a pergunta:

- Fuma?

-Não.

- Já fumou?

- Já. Uns 10 anos.

- Há quanto tempo parou?

- Três anos.

- Fumava muito?

- Socialmente, só quando saía.

- Não entendo como vocês (?) fumam – com ar de reprovação.

Não me segurei. Vindo de uma médica, achei esse tipo de pergunta idiota. O vá tomar na tarraqueta quase se jogou da minha boca. Eu, que já estava quase levantando por conta da antipatia automática e indo embora, me contive, respirei fundo, olhei em seus olhos e respondi:

- Fumam porque são viciadas. Eu era viciada em cigarro, ainda que apenas das 18 horas de sexta às 18 de domingo. Cigarro fede, tem cheiro e gosto ruim, é socialmente reprovado, faz mal para a saúde, envelhece e ainda afasta os homens. Se não fosse quimicamente viciante, eu não teria fumado tanto tempo.

Prontamente ela perguntou, afobada, mudando de assunto:

- Já passou por alguma cirurgia?

O ‘causo’ veio a calhar com esta onda de proibição de fumo em local fechado, e dá o gancho para emitir minha reles opinião sobre o assunto – acho exagero. Acho sim que deveria ser proibido em todos os locais públicos, até na rua. E que nos privados ficasse a cargo do dono do local. Por outro lado, eu entendo que a intolerância a um cheiro impregnante é capaz de surtir efeitos legislativos de eficiência duvidosa. Eu por exemplo, ODEIO a tal picanha na pedra mais do que qualquer cigarro, e evito mesmo locais onde este é o carro chefe do cardápio. Gostaria, de verdade, que picanha na pedra fosse servida apenas em locais abertos e sem toldo.

PS pros senhores médicos que porventura visitem esta casa humilde – as opções dos seus pacientes, sejam quais forem, não é problema de vocês. Não é problema de vocês se eu como açúcar, se eu fumo, se eu gosto da gordura da picanha, se eu beijo o cachorro, se eu não lavo as mãos toda hora para evitar a gripe A, B ou C. Portanto, aconselhem, recomendem, auxiliem, ofereçam ajuda, mas, por favor, não julguem. É feio, muito feio.

14
Jun
09

Caratuva

O amanhecer gelado de 13 de junho em Curitiba foi de preparativos para a subida do Caratuva. Eu não esperava mesmo o que viria pela frente, quando, uma semana antes, ele me ligou dizendo “Maria, traga roupa para escalada pois vamos fazer uma trilha, tranquilinha, tipo a que fizemos aí em Petrópolis, só um pouco mais longa”. Eu beirei um ataque. Nem uma trilha menor me animaria naquele momento. Eu estava muito mal, com uma tosse pós gripe, sinusite, e o frio parecendo deixar tudo pior. Mas resolvi dar um crédito, confiando que a previsão do tempo mandasse chuva e o evento fosse, literalmente, por água abaixo, procurei um médico e, mandando ver no antibiótico, coloquei as roupas para escalada na mala.

Véspera sem chuva, amanhecer sem chuva, e eu já gostando da idéia, seguimos à montanha. Café na padaria, mochilas, máquinas fotográficas, agasalhos, apitos, lanternas. Partimos rumo ao Caratuva.

MA Curitiba junho 2009 012 red

Não, não era uma trilha simples como a do Véu da Noiva. Após uma hora de subida puxada em terreno bem agradável, entramos no meio da mata. Eu olhava para cima e tudo o que via era uma escada de pedras e raízes de árvores. Conseguem imaginar? Tentem. Não chovia, mas a montanha envolta em neblina não deixava evaporar a umidade do local. As árvores molhadas “choviam” em cima da getne. Água, suor e lama. Lama, muita lama. Esforço e cansaço. Eu a única mulher e três homens acostumados a este tipo de aventura, estava um bocado assustada, mas fazia de tudo para não pensar nisso. Não, desistir não era opção. Nem pensar que não ia conseguir. Nem reclamar. Bem, só algumas reclamações pequenas, quase sarcásticas, para que eu risse de mim mesma. Tentava me distrair com a beleza das bromélias e cogumelos que encontrava pelo caminho. E quando o perrengue maior chega ao fim, você nem acredita.

MA Curitiba junho 2009 017 red

De repente, a mata dá um tempo e a vegetação muda radicalmente. Vegetação de topo de montanha é uma das coisas mais lindas, parecem jardins de brinquedo. A dali em especial, é formada pelas caratuvas, uma espécie diferente, com cerca de um metro de altura, e outros arbustos pequenos. Lindíssimo. Eu só lamento muito o tempo não ter aberto nem um pouquinho. Ficou tudo muito fechado a caminhada toda, e só na volta eu tive idéia da altitude em que estava. Subi o último lance rumo ao topo bem devagar, descansando e ao mesmo tempo curtindo.

MA Curitiba junho 2009 023 red

Lá em cima, o frio corta. Na subida, você não sente pois mexe todo o corpo e está sempre aquecido. Mas chegando no topo, mudei a roupa e fiquei por ali apenas o tempo de comer alguma coisa, preencher o livro (eu não sabia disso: há um tubo fechado no alto da montanha, com um caderno e caneta para a galera que sobe anotar sobre quem subiu, tempo de subida, data, etc) e tirar algumas fotos.

MA Curitiba junho 2009 034 red

Fui a primeira a descer para o corpo não esfriar. Devagar e fotografando. Eu sabia que a descida não iria ser fácil: o esforço é quase o mesmo da subida e você tem que pensar em cada movimento para não despencar ou se machucar. No final a minha cabeça já não funcionava muito bem, nem os joelhos, nem as pernas e, pisando em falso num dos trechos sem a menor dificuldade, levei um tombo! Não sei quanto tempo levou a descida (deixo pros homens os detalhes técnicos) mas calculo mais ou menos o mesmo tempo da subida.

De volta à fazenda de onde partimos para a trilha, tirei os tenis e mergulhei os pés na água gelada de um lago. Ajuda, num primeiro momento, se você teve alguma lesão que não percebeu. Hoje, de volta à casa, os pés são a única parte do corpo que não doem.

Escrevendo aqui, vou ao Google e descubro que o Caratuva é a segunda montanha mais alta do sul do Brasil. Não sei se é mesmo, eu não me importo muito com isso. Para mim, basta saber que, mesmo sendo difícil, eu cheguei lá em cima. E nunca vou me esquecer dela.

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Esse poste vai pra Marlus, Torrone e Gustavo, com meu agradecimento pela companhia, pela paciência e pelo incentivo.

27
Mai
09

toda possibilidade

Uma tarde de verão em pleno fim de maio. Um livro de contos de um autor argentino. Uma lembrança. Se eu fosse romântica eu chamaria de armadilhas do universo que me pegam desprevenida em cada esquina. Como cética, digo apenas que sim, tenho pensado muito em você. E creio que não seja para ser diferente. A ansiedade corrói estes dias que se arrastam, e eu nos vejo nas entrelinhas de escritos alheios aqui, acolá e em palavras de contista argentino, porque meu pensamento de você não me abandona.

E não nos tratávamos como desconhecidos, mas como pessoas que se conhecem já há muito tempo, e para as quais não existem segredos, porque a nudez da alma tornou visivel toda possibilidade.*

Éramos isto. Éramos almas nuas naquela tarde de verão em pleno fim de outubro. E hoje, nesta tarde de verão em pleno fim de maio, finalmente consegui traduzir o meu querer naquela outra, gozada em terras inconfidentes, com palavras de um contista argentino: toda possibilidade.

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* O contista argentino é Roberto Arlt, o livro é a coletânea As Feras,  o trecho foi extraído do conto Ester Primavera, tradução de Sérgio Molina.

24
Mai
09

Você mentiu pra mim!

Episódio 1 – um show num bar.

- Que coinciência nos encontrarmos novamente, não é?

- Hein?

- Nos vimos ontem, hoje de novo…

- Hã? Não estou ouvindo.

- Pena que hoje eu estou acompanhado, senão ficaria aqui dançando com você.

- … (ela aponta para a orelha e gesticula para ele entender que era impossível escutá-lo).

Episódio 2 – mesmo bar, outro show.

- Hoje eu não estou acompanhado.

- … (ela olha para ele com uma cara de “e eu com isso?”)

- Mas ouvi dizer que você está…

- … (ela espreme os lábios como quem diz “fazer o que?”)

- Acontece. Dias melhores virão.

(ela respira fundo e segura o riso)

Mais tarde, ela dançando com os amigos na frente do palco, ele passa e diz:

- Você mentiu para mim!

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Moral da história: pena da falta de autocensura alheia.

18
Mai
09

pinceladas musicais do fim de semana

Estou aqui já amargando saudades de Armação dos Búzios. Não mereço não morar naquele lugar. Acabo de chegar de um encontro de uma turma autodenominada peronautas (referência à praia do Peró, em Cabo Frio, RJ), da qual sou agregada, com a cabeça fervilhando de várias lembranças. Como isso aqui não é um diário, detalhes sobre a viagem eu fico devendo, e deixo pra vocês duas músicas que marcaram o fim de semana.

A primeira foi a trilha da viagem – ainda não tinha ouvido falar de Maurício Baia (quem sabe um dia Rodrigo, peronauta legítimo, volte aqui e fale melhor sobre ele), mas já tinha tido contato com essa música deliciosa, que tem uma batidinha quase brega, mas genial: Lembrei.

Quis não ter querer, pra mim, é a frase da música.

A outra foi um achado na memória dos tocadores de viola, nostalgia total, classificada pelos próprios como “música de corno adolescente” – que são tocadas quando o eu-etílico se aflora, arrancando de todos boas risadas. Dominó,  Com todos menos comigo (vídeo aqui, participação nos Trapalhões):

Vai por aí com uns e com outros
E passa por mim
Faz pouco de mim
Anda muito bem
Com todos menos comigo

Seus olhos são
São verdes bofetadas
No meu coração
Me dizem que não
E vai por aí
Com todos menos comigo

E gosta de rir diante de mim
Representa o papel de sereia feliz
(diz que essa frase não é o ápice!)
E perde seu controle
Com todos menos comigo

Já cheguei a pensar
Mais de uma vez
Me fazer infeliz te provoca prazer
Dizer que faz amor
Com todos menos comigo

Mas hoje eu sei que dentro de mim
Tem um lance do amor
Que não tem mais fim
Isso acaba mal
Com todos menos comigo

Nunca diga jamais
Pra não errar
Essa história de amor bem que pode virar
E você vai ficar
Com todos menos comigo

14
Mai
09

Uma imagem é uma imagem é uma imagem

Ao responder aos comentários sobre o poste aí de baixo, Coffee shop, o meu tomou vida própria e agora está aqui, onde poderei falar mais e mais e mais.

Uma imagem é apenas uma imagem. É?

A história da foto: temos R., amiga irreverente, pessoa extraordinária, fumante incorrigível. Tanto que seu médico resolveu que seria melhor convencê-la a fumar os cigarros de palha do que abandonar os comuns. Conseguiu. Os de palha enquanto fumados precisam ser reacendidos a todo momento e, com isso, a pessoa se distrai com o cigarro apagado entre os dedos e fuma menos. Antes era quase um maço a cada saída. Hoje, uns três cigarros. R. hoje mora na serra, mas é nascida e criada no posto 9 em Ipanema. Sabem o que é o posto 9, certo? Pra quem não sabe, é lá onde rola a famosa “marcha da maconha”, onde o povo apita pra avisar que a polícia está chegando. Na mesma Ipanema, R. passou a vida numa rede de volei (até hoje não entendo como ela fuma tanto). Juntando a história de R., um cigarro que é enroladinho artesanalmente, uma turma de gente comédia de  e um fotógrafo abusado, o que saiu foi foto de um monte de gente fingindo estar puxando unzinho. E não foi fácil. Só minhas o Bruno W. bateu umas 5 até conseguir a “realidade coffeeshopeana” que esperávamos.

O destino da foto: e finalmente Bruno W. apareceu com as fotos deste dia. Devidamente captadas, vi que o orkut não seria o melhor destino para esta que veio parar aqui no blog porque, como dizia Tiopaulão, gente descalça na área. Então trouxe a foto pra cá, já sabendo que ia provocar alguma reação, mas sendo, a priori, apenas uma foto.

O mais curioso é que para mim esta imagem é apenas uma imagem e, provavelmente, pra muita gente que passou por aqui não é.

E para que fique sepultada qualquer dúvida a respeito do que ingere ou não esta criatura que vos fala, digo a vocês que meu nível de caretice é bem alto, diferente do que no post pode parecer (e por isto mesmo foi postado na categoria Realidade Virtual). Não vou dizer o que faço ou o que não faço, que não é da conta de ninguém, mas só a título de parâmetro, sinto muita culpa quando como qualquer coisa que leve glutamato monossódico e nicotina foi a pior droga que já usei e da qual, por um milagre talvez, me afastei. Com ela tenho que manter sempre os dois olhos bem abertos.

Tenho minhas opiniões a respeito do “legalize qualquer merda”, mas aprendi que não vale a pena expô-las. Sabe por que? Eu levava pedrada de todo lado sem nem ter interesse na causa. Então hoje me reservo no direito de não dar opinião. Consequentemente, a foto não representa nenhuma bandeira.

Concluindo: não, uma imagem jamais será apenas uma imagem.

E agora, em resposta aos comentários:

Mirian, eu também acho.

Altamir, imagino o tanto de interpretação que passou por esta cabeça!

Louise, vc acha mesmo que se eu tivesse ido a Amsterdam eu teria colocado uma foto aqui fumando maconha num coffee shop?

Renata, eu também. Por isso ela veio parar aqui.

Gustavão, como o Sr. já soube de antemão, ainda bem que não gostou. Sua opinião por aqui é deveras importante.

10
Mai
09

Groupie

Foi lá pelos idos de 93, 94, que ganhamos as madrugadas sem lei. A noite de Itaipava era de uma precariedade charmosa ao extremo, e combinava bem com o visual grunge que a galera adotava na época, assim como com a pouca verba adolescente. Era destino certo das noites de sábado na época em que aqui fazia muito mais frio do que faz. O principal ponto da galera era bar/restaurante de crepes (que existe até hoje – completamente reconfigurado e, como diz uma das donas, evoluído) que na parte de trás tinha um palco improvisado onde os melhores músicos da cidade se fizeram conhecidos e amados por todos. Era o palco, o frio e a fogueira, onde vários tocadores assíduos de viola também se fizeram amados e conhecidos, que levavam a noite até as 5 da manhã. E tome camel (cachaça com mel, vendida, na época, à equivalência de R$ 1,00) para esquentar as gargantas.

E assim foi que o blues impregnou a existência dos que viveram aquelas noites, junto com outros sons, The Doors, Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd e, é claro, afinal, era a época deles, Nirvana e Pearl Jam. Depois todo mundo ia junto para o ponto de ônibus mais próximo esperar pelo corujão, que naquela época não tinha perigo (e eu continuo achando que até hoje não tem tanto assim… mas os adolescentes foram banidos das madrugadas por algum juiz da infância mal humorado).

Uma das bandas desta época tornou-se a nossa favorita, não sei exatamente se pelo som que faziam ou se pela quantidade de shows, e por mais de um ano teve uma galera que conseguiu ir a todos os shows dos caras – e eu fazia parte desse grupo! Sabíamos o repertório de cor, valendo interpretar as backing vocals em Mustang Sally – ride, Sally, ride – e tendo certeza que nenhum show terminava sem tocar Wish You Were Here. Falo sem saudosismo porque vivi cada minuto daquelas madrugadas.

Para você que não viu The Commitments:

E ontem, caçando o que fazer na boa e velha Itaipava, show da banda no bar/restaurante evoluído! Boa supresa – faz um tempinho, esses músicos resolveram se reunir para alguns shows. Foi bom para recordar, embora eu sempre tenha uma certa nostalgia da precariedade da fogueira. Lugar cheio, som impecável. Só não fiquei para ver se tocou Wish You Were Here. Não sou mais uma adolescente, agora o restaurante tem comanda e a fila para pagar, quando o show termina, estraga o glamour de qualquer noite!

28
Abr
09

A gripe do porquinho e minha visão de espectadora do mundo

Do alto do seu olimpo, erguendo a sobrancelha direita, minha PhDeusa favorita tira os olhos da TV, os volta para mim e diz: não dou uma semana pra chegar aqui.

Bem, já chegou até na Nova Zelândia, não dá mais pra discordar da mulher. O fato é que depois do vaticínio nós voltamos a atenção para uma propaganda de um salão famosérrimo que começa com W, e continuamos a falar sobre cortes e tons de cabelos e tals…

[se alguém que trabalha lá chegar a este humilde blog, mereço um presente do salão que começa com W, afinal, quase todo mundo sabe do que se trata]

Continuando, hoje de manhã… MEDO. Na aula de costura (pronto, contei – tô fazendo aula de costura) o assunto não era outro: a mulherada toda falando que já temos 12 casos no Brasil.  O que fiz? Calei a minha boca. Eu já tenho um montão de motivos pro povo me olhar esquisito na aula, se abrisse a boca pra falar de ciência então…

Aí, na hora do almoço aquela companhia detestável do Jornal Hoje – que zona estão fazendo na cabeça das pessoas. Chego a afirmar categoricamente que o problema do mundo é falta de comunicação.

Baseada em coisas miscelanamente noticiadas pelo Bom dia Brasil, Jornal Hoje e Globo on line, o que está dando pra perceber é o seguinte:

1) Ou o governo não está nem aí mesmo pro assunto, ou se finge de blasé pra não criar pânico. Não entendo.

2) Há perigo real para saúde e vidas? Não sei. Isso quem tem que dizer são os cientistas.

3) É uma gripe. Apenas uma gripe. Qualquer um supera, a gente sabe. Pensando assim micro, é mole. O problema é pensar macro. “É apenas mais um vírus” (ou uma mutação, no caso) – ao meu ver, é um problemão. É mais uma doença pra cuidar, pra se preocupar, pro SUS ter mais gastos, embargo econômico à carne do porquinho, queda na bolsa, blá blá blá… pensa que não?

4) Apesar de não existir razão para pânico, gripe se espalha relativamente fácil. E aí sim, a população não tá nem um pouco preparada para epidemia. Se o governo agir, vai agir tarde… aí tem gente que não acredita no governo (por razões óbvias)…

Enfim, volto a repetir que o problema do mundo é falta de comunicação.

A propósito, até agora, NÃO HÁ NENHUM CASO CONFIRMADO NO BRASIL.